A ESPERA POR BERNADETE.
A ESPERA POR BERNADETE:
Mil novecentos e sessenta e oito foi um ano difícil. Terrível podemos até dizer assim. Mas nós não sabíamos de nada do que estava acontecendo. Éramos crianças e o nosso universo era a vila onde morávamos, o quintal da minha casa era em particular o meu mundo e tudo o que estava em volta. À frente a rua metade de paralelepípedos e metade de terra. Os quintais dos meus vizinhos também eram pequenos ecossistemas, com seus pomares, hortas, jardins, plantações de cana. Ao fundo a chácara do Seu Laerte, o mato, os pés de mamona com mandruvás gigantes, onde nas pequenas trilhas encontrávamos sacos de bode maduros, amoras vermelhinhas e suculentas.
Não. Não sabíamos de nada sobre ditadura, sobre militares no poder, sobre torturas. Mal assistíamos televisão. Nossa vida era na rua, nos quintais das casas. Os dias eram longos, os anos eram de uma eternidade. Eu não havia ainda entrado para escola, mal sabia ler, apenas intuía algumas palavras nos livros que folheava. Meu pai um trabalhador incansável vivia sempre reformando a casa, um conserto aqui e outro ali, a horta que fazia questão de manter.
O poço artesiano ele mesmo que perfurou com a ajuda de amigos vizinhos. O muro em frente de casa não era um muro alto, muitas vezes ficávamos empoleirados sobre ele a observar a noite cheia de estrelas, a ouvir moda de viola tocada pelo Seu Orlando nosso vizinho que fazia um dueto com seu filho, nosso pai tinha esperanças de que um dia eu e o meu irmão tocássemos violão. Isto nunca aconteceu. Ele bem que se esforçou dando ao meu irmão um violão e para mim um cavaquinho, mas isto foi depois. Agora nem pensávamos nisso. Enquanto os adultos escutavam maravilhados os acordes de viola e violão nós brincávamos na rua em volta da fogueira de São João.
Fora o meu pai e a minha mãe, éramos três. Meu irmão mais velho dois anos e minha irmã mais nova dois anos também. Eu era o do meio. Não tinha os privilégios do primogênito e nem os cuidados e carinhos dedicados ao caçula, no caso a minha irmã, que tinha duas vantagens ser caçula e ser menina. Não que eu fosse desprezado, não, nada disso. O meu pai tinha o cuidado de tratar os filhos de forma igual, mas queira ou não queira há sempre uma hierarquia, e como eu era o do meio tinha que me contentar em ser sempre intermediário entre o mais velho e o mais novo.
Em frente de casa, no quintal havia um pé de limão rosa e uma ameixeira, de tempo em tempo carregados de frutas. As outras casas também possuíam os seus pomares. Lembro-me que na casa do Juraci, no final da rua havia um enorme abacateiro, costumávamos brincar nesta árvore. A vila era rodeada por uma mata e por um campo que se estendia até a avenida principal do bairro. Nesta mata poucos metros da minha casa havia um bica onde íamos beber água.
À noite brincávamos na rua até a mãe chamar para janta e dizer que era hora de dormir e não de moleque ficar na rua. Às vezes nos permitiam esticar um pouco enquanto os adultos assistiam reunidos muitas vezes em uma só casa a telenovela das oito. Nossa turma se reunia com os mais velhos comandando sempre, depois íamos dormir sabendo que o dia seguinte seria longo.
Nossa vida era assim quase todos os dias. Nos domingos meu pai nos acordava cedo para ir à missa. Isto era uma coisa que ele fazia questão. Ir à missa, rezar, depois ir feira. Ao meio dia o almoço de domingo, todos reunidos a mesa, depois passear até o final da tarde.
Havia toda uma mágica neste cotidiano que jamais vou me esquecer. Eu menino muitos vezes retraído gostava também da minha solidão de fundo de quintal, brincando com pedras, pedaços de madeira, seguindo o caminho das formigas, imaginando que a horta era uma mata densa onde os insetos viviam.
Os garotos brincavam de guerra de mamona muitas vezes na rua. Também fazíamos trilhas que eram verdadeiras aventuras na mata. Ou mesmo na chácara do seu Laerte que tinha duas filhas. Tínhamos um medo tremendo dos mandruvás que ficavam nas folhas dos mamoeiros. Cada menino tinha também o seu patinete de rolimã. Os mais velhos com seus carrinhos faziam carretos nas feiras que era pra ganhar um dinheirinho, outros vendiam sorvetes e a tarde freqüentava a escola.
Eu ainda não estava em época escolar, portanto tinha quase todo tempo para brincar, cumprindo é lógico as tarefas caseiras que os meus pais sempre impunham. Que era pra não virar vagabundo. O meu irmão mais velho sempre escapulia destas tarefas e então sobrava para mim e para a minha irmã. Varrer a casa, lavar a louça, colocar os brinquedos que eram poucos no lugar. Quando o meu pai chegava do trabalho pedíamos a benção e logo era hora do jantar.
Meu pai fazia então três turnos na metalúrgica, cada semana estava num horário diferente, e como trabalhava na fundição os olhos estavam quase sempre vermelhos e fadigados pelo trabalho pesado. Minha mãe cuidava da casa, mas também trabalhava fora. Neste ano ela estava grávida, e todos nós estávamos à espera de uma criança.
Nossa casa tinha três cômodos, quarto, sala e cozinha, o banheiro ficava nos fundos, próximo do poço. Neste ano o meu pai comprara uma bomba que era pra bombear a água para caixa. Reformava uma coisa e outra que era pra quando chegasse o nenê estivesse tudo pronto. Um berço que havia sido meu e depois da minha irmã seria o berço do bebê. Meu pai lixou e pintou.
A casa onde morávamos não tinha portão, apenas o muro baixo, onde nos reuníamos quase todas as noites, eu, meu irmão e a molecada. Minha irmã que era mais nova e menina nunca se permitiam que a noite ficasse lá fora. Como a minha casa ficava mais ou menos no meio da rua, ali sempre foi como que um ponto de encontro.
Neste ano meu pai resolvera colocar um portão de ferro separando o quintal da rua, comprou um portão de segunda mão que lixou, passou zarcão e pintou. Fixou com concreto os suportes laterais, e num dia pela tarde resolveu fixar o portão.
A gravidez da minha mãe já estava avançada, creio que já devia estar no sétimo mês. Estávamos todos reunidos em frente de casa, meu pai, minha mãe e meus irmãos. O portão era pesado. Meu pai o colocou no lugar, pediu para que a minha mãe o segurasse até que ele fixasse as dobradiças, o portão estava equilibrado era só mantê-lo ali nivelado. Só que neste momento minha mãe começou a tombar para trás, sofrera uma vertigem, mas não largou o portão, nós acudimos, mas ela foi indo para trás e puxando o portão junto consigo até descer ao solo e bater a cabeça, apoiamos o máximo que pudemos o portão, mas mesmo assim ele caiu por cima da sua barriga, sustentamos o peso e levantamos com esforço o portão, minha mãe estava desmaiada, um filete de sangue escorria da sua cabeça. Socorremo-la, levando-a para cozinha e sentando ela na cadeira, ela já havia recobrado os sentidos. Disse que não fora nada, apenas lhe doía à cabeça. Meu pai fez um curativo e ela foi se deitar.
Dias depois minha mãe estava melhor, o portão fora fixado com sucesso, meu pai começara a construir um barraco de dois cômodos no fundo de casa que era para receber sua irmã, o esposo e seus filhos que vinham do interior de Minas Gerais para se fixarem na capital paulistana, meu pai sempre fora o anfitrião de todos os nossos parentes de Minas desde que chegará a São Paulo anos atrás.
Estávamos então no final do ano, o natal se aproximava. Meu pai nos comunicou que neste ano não ganharíamos brinquedos, pois o orçamento estava apertado com a chegada do bebê. O natal chegou e como sempre passamos todos, os meus pais e os meus tios maternos e primos a noite natalina na casa da minha avó Ana, mãe de minha mãe na Vila Guarani. Depois veio o ano novo que era também o aniversário de anos do meu pai. Logo minha mãe foi internada, faltando ainda cerca de um mês para o final da gestação.
Meu pai pediu que nos comportasse e cuidássemos da casa na ausência da minha mãe enquanto ele trabalhava. Sempre ao voltar do trabalho ele preparava a comida para todos nós, de dia bastava esquentar e cuidar da casa, as tarefas deviam ser divididas entre eu, o meu irmão e a minha irmã. Varrer a casa, lavar a louça, cuidar do quintal, regar a horta, enfim nos incubemos disso na ausência de minha mãe, ansiosos com a chegada do nenê.
Meu pai sempre passava pelo hospital e dizia que tudo estava bem, que era para nós termos paciência porque mamãe logo estaria de volta e tudo voltaria ao normal. Meu irmão ia para a escola à tarde e dava sempre um jeito de não fazer nada, então as tarefas ficavam para mim e para a caçula, e como ela era muito pequena eu acabava por fazer quase tudo. O meu pai chegava esgotado, mas mesmo assim preparava sempre a comida e então jantávamos e íamos dormir.
A espera se tornava angustiante. Passado alguns dias minha mãe retornou. Mas e o bebê? Não podia vir, deveria ficar no hospital mais alguns dias. Mas quanto tempo? Meu pai disse que só mais algum tempo. A criança havia nascido fraca, precisava se fortalecer. Minha mãe estava convalescente, mas logo tomou as rédeas da casa, a tarde sempre deitava para descansar. Nós esperávamos imaginando como seria a carinha de Bernadete, que era o nome escolhido pela minha mãe em homenagem a sua irmã caçula, morta prematuramente.
Os dias passavam e nada de chegar à criança. Eu principalmente estava cada vez mais impaciente querendo pegar aquele nenê nos meus braços e chamá-la de minha irmãzinha querida, minha pequena Bernadete. Ano que vem eu iria por fim entrar na escola, então aprendendo a ler com perfeição, porque já lia algumas coisas, eu poderia lhe contar histórias da mesma forma que o meu pai fazia.
Foi no início da noite deste dia que o meu pai chegou sério, os olhos tristes. Minha mãe estava na cozinha preparando o jantar. Apenas ouvi o meu pai sussurrar alguma coisa e logo a minha mãe passou pela sala em direção ao quarto, separados apenas por uma cortina, ouvi a minha mãe chorando e tive um aperto no coração, logo em seguido passou meu pai. Não pude distinguir o que conversaram, apenas ouvi o meu pai dizer: Deus quis assim, o que fazer?
Depois ele nos reuniu na sala e disse que a criança havia morrido porque nascerá muito fraquinha e que agora ela era anjo de Deus, porque as crianças quando morrem não tem pecado. Rezamos um Pai Nosso e uma Ave Maria e depois fomos nos deitar. Eu não consegui dormir direito nesta noite, a toda hora acordava e olhava em volta a escuridão do quarto e o berço na penumbra a espera de quem não viria mais ocupá-lo.
No outro dia pouco falei, fui pro quintal ver as formigas. À noite o meu pai mostrou para todos nós o registro da criancinha que se chamaria Bernadete Donizete Rodrigues, que esteve por tão pouco tempo neste mundo e que partiu sem que soubéssemos como era o seu rosto. Estávamos então em mil novecentos e sessenta e nove. Ano que vem eu iria à escola. Meu pai comprou uma televisão, agora não precisávamos mais assistir programas na casa do vizinho. À noite no quintal eu olhei pro céu e avistei uma estrela muito brilhante a quem chamei de Bernadete. Minha estrelinha Bernadete.
Este ano passou lentamente. O Brasil está mudando, o meu pai dizia sempre. O Brasil está mudando, meu filho, é preciso ter cuidado nas ruas. Um dia ao voltar do serviço ele me trouxe um presente embrulhado com muito cuidado. É para você meu filho ele disse. Abri o embrulho ansioso. Era um livro, de capa dura, ilustrado: História do Rio Amazonas. Eu já sabia ler um pouco, embora com dificuldades. Meu pai passou a mão na minha cabeça e disse: Ano que vem você vai à escola.
Nesta noite dormi sonhando com os índios do Amazonas, na manhã seguinte saí sozinho, andando pelas trilhas da chácara do seu Laerte me sentindo um Bandeirante desbravando as matas. Pensei no nenê que não veio e deixou àquela tristeza, uma lágrima escorreu dos meus olhos. Peguei um cajado e gritei: Bernadete! Aqui vai o seu irmão desbravando a matas do Amazonas! O meu grito ecoou pelo campo afora. Os pássaros debandaram no horizonte.
2014.
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