AUTO RETRATO OU VAMPIRO SUBNUTRIDO E A BALADA DO HOMEM CAVALO: Análise Interpessoal.
AUTO RETRATO OU
VAMPIRO SUBNUTRIDO E A BALADA DO HOMEM CAVALO:
Análise Interpessoal.
Vamos trabalhar aqui com o conceito de
"Persona" ou "máscara", podemos usar também o termo
"Eu-poético".
O Poema é a manifestação de um Eu poético
que por si só já é o levantamento de uma Persona. Consideremos também que o
"Ser poeta" assim como o "Ser ator" já é em si uma máscara
adotada pelo sujeito, portanto o "Estado Poético" é responsável
pelo nascimento do "Poema" enquanto objeto, assim como os
procedimentos na construção do mesmo trata-se de uma "ação extra
cotidiana" ou como a manifestação de um "Eu criativo" que
se expressa através de uma linguagem, neste caso a palavra escrita.
O Poema:
Eu que sou um vampiro subnutrido
Que vaga pelas noites alucinógenas
Não posso corromper a solidão que me nutre
Assim como a vida não pode deixar de ser
contraditória
Em sua trajetória para a morte...
Na primeira estrofe do poema já é
levantada a Persona do "Vampiro Subnutrido", o adjetivo usado
transforma esta persona numa figura patética, um anti herói que vaga pelas
noites cheias de alucinações, é desta divagação que surge a sua
reflexão na tentativa de se definir. É a solidão que o nutre, é na solidão
que ele se alimenta (como é na solidão que a poesia se manifesta, na maioria
das vezes), a isso ele junta um princípio universal e existencialista: A vida
em seu movimento em direção a morte.
Aqui ele começa digamos a esboçar uma
imagem que é uma tentativa de definição de si mesmo: Um ser notívago em busca,
digamos de "sangue novo" que tem consciência que a existência está
destinada a dissolução inevitável.
Eu que vivo apenas para ser uma transição
Entre o real e o imaginário
Andarilho dos subúrbios,
Sem alvará, vaidade, sem ancestrais,
Nascido do caos da civilização,
Cidadão sem pátria e sem religião,
Anelante anêmica criatura,,,
Prefiro a noite... Antecipar o dia...
Rasgar o calendário, caminhar no sentido
anti-horário,
Anteceder o dilúvio,
Aparar as desgraças do mundo num tubo de
ensaio...
Prefiro a noite...
Luzes de neon, minha aflição aparvalhada,
O silêncio mórbido das madrugadas,
A lua mudando a minha fisiologia...
A noite aqui deve ser considerada enquanto
uma atmosfera simbólica que este "Vampiro" (como a Persona se define)
respira, vive e se locomove,. Uma noite que vem antes do dia e que na verdade o
antecipa. Os atos de rasgar simbolicamente o calendário e caminhar no
sentido anti-horário denota o seu caráter subversivo que rompe
com as convenções de tempo-espaço, a ponto de manter um
distanciamento das desgraças que o mundo apresenta (como um cientista que
pudesse colher as fatalidades para estudá-las no laboratório). E assim ele
vive de uma aflição abobalhada, no silêncio e na solidão onde se reconhece
em processo de transformação, uma transformação que age inclusive sobre o seu
corpo, afetando sua aparência e os seus órgãos. (sua fisiologia enquanto ser
orgânico).
Eu que não tenho moradia,
Que vivo a noite vivendo o dia,
Que tenho a dívida maior do mundo,
E carrego a cruz que foi de Cristo...
Tenho chagas que são profundas
E tenho sonhos já carcomidos...
Aqui inicia-se a segunda parte do texto,
onde a Persona volta a questão social e existencial, é uma tentativa de definir
sua marginalidade diante da sociedade vigente. Este ser que se nutri da solidão
da noite e que vaga pelos subúrbios é um ser que não tem moradia ( o
que reforça a sua marginalidade) e que mesmo durante o dia vivencia as
trevas (o que evidencia o seu estado psicológico), carrega um peso moral
(a culpa, o pecado original) que lhe foi imposto, deixando marcas
profundas e destruindo seus sonhos. É um estado de espírito que é
exposto, uma confissão feita diante do espelho no ato em que executa o seu
auto-retrato.
Eu que sou regido pelo sol,
Que trago o fogo em labaredas,
Trago a lua como estandarte
E os planetas sobre os meus dedos...
Para concluirmos a última estrofe
estabelece uma contradição. Afinal este "Vampiro Subnutrido" que
tanto prefere a noite se define como um ser regido pelo sol (portanto do signo
de leão) e como Prometeu é o portador do "fogo vivo", e a lua é na
verdade seu estandarte e os planetas, portanto estão sobre o seu controle ou
como anéis que ele usa para se enfeitar. As imagens aqui são por demais
subjetivas, mas operam no corpo do poema uma reação que impulsiona a
Persona para frente. O retrato está completo (ou pelo menos o seu
esboço) , mas é apenas um auto-retrato entre muitos outros
(possíveis), é apenas o registro de um momento (entre tantos outros), de um
estado de espírito que o artista vê no seu espelho subjetivo e registra na
sua tela imaginária.
BALADA
DO HOMEM-CAVALO.
A exemplo de "Auto-Retrato" este
poema também levanta uma Persona específica (o homem cavalo) que da mesma
forma trata-se de um "EU" se auto definindo através do seu enunciado.
É um poema que possuí uma vocação expressionista, no sentido que utiliza-se dos
recursos do exagero e da distorção com o objetivo de ressaltar os sentimentos
contidos no texto, isto se dá na sugestão de imagens contundentes que reforça o
caráter da Persona apresentada.
Aqui na metrópole magnânima,
Entorpecida, narcotizada com ópio e
heroína,
Megalópole embrutecida,
Com rios apodrecidos e deteriorados
E chaminés colossais sobre o horizonte...
A primeira estrofe apresenta a cidade na
visão da Persona. trata-se de uma cidade doente (entorpecida e narcotizada).
Uma cidade embrutecida com seus rios podres e com chaminés como gigantes
despontando no horizonte. Portanto esta visão possuí ao mesmo tempo uma
característica sublime (no sentido do imensamente grande) quanto grotesca (com
suas distorções e irregularidades).
Grito o meu grito cheio de ecos,
Berro atômico estridente,
Trafego os meus pés pesados,
O meu corpo suspenso pelos ombros,
Os meus olhos vermelhos esbugalhados,
O meu hálito amargo pela manhã...
É nesta cidade que a Persona se locomove
(trafega nas suas próprias palavras). Seus gritos embora com a potência atômica
são cheio de ecos e apenas ressoam sem resposta na imensidão
da metrópole. A persona pode ser caracterizada como "um cavalheiro
da triste figura contemporâneo" que esbraveja não com "moinhos de
vento" mas com "chaminés colossais que despontam no horizonte."
O seu corpo a exemplo da cidade é um corpo também embrutecido que carrega o
peso da sua própria existência que reflete na sua psicologia e fisicidade
(os pés pesados, o corpo suspenso pelos ombros, os olhos vermelhos
esbugalhados, o hálito amargo pela manhã).
Em meio a enxofre e gasolina
Os motoristas soltam suas vísceras sobre
os semáforos,
E seus escarros sobre o asfalto,
Que é mais um rio negro e metálico
Fluindo para a boca do inferno...
O seu habitat é o asfalto que é como um
rio negro e metálico, e como o rio Eufrates desemboca no inferno, aqui também é
explicitada a violência deste ambiente onde motoristas chegam a soltar
suas vísceras e seus escarros sobre o asfalto, por isso trata-se de um rio
turbulento onde trafegam não homens mas feras prontas a
atacar. A cidade é "umbral terreno" onde pessoas
vagam perdidas e embrutecidas tanto quanto a cidade.
Escondo-me sobre cubículos amarelados
Onde durmo o meu sono
Que é mais uma morte prematura,
Onde pela manhã ressuscito,
Não como Lázaro
Mas como um demônio de sete cabeças
Ou como um centauro
Na minha condição
De ser homem e ser cavalo!
Mas nesta cidade com toda a sua
magnanimidade é em cubículos amarelados que ele repousa, e o seu repouso como
ele diz é uma espécie de morte diária, onde pela manhã como num ritual
perpétuo ele ressuscita, não como Lázaro (com sua humanidade, humanidade esta
que lhe é negada), mas como uma espécie de monstro mítico e assustador para si
mesmo, ou na figura de um centauro, metade homem e metade cavalo. E é a sua
condição social que lhe trás de repente esta consciência de homem embrutecido
pelas contingências que o transforma em um animal de carga. Mas este
"homem-cavalo" ao se reconhecer se humaniza através da sua revolta, e
o seu discurso ácido é o testemunho desta humanização.

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