AUTO RETRATO OU VAMPIRO SUBNUTRIDO E A BALADA DO HOMEM CAVALO: Análise Interpessoal.



AUTO RETRATO OU VAMPIRO SUBNUTRIDO E A BALADA DO HOMEM CAVALO:
Análise Interpessoal.

Vamos trabalhar aqui com o conceito de "Persona" ou "máscara", podemos usar também o termo "Eu-poético". 
O Poema é a manifestação de um Eu poético que por si só já é o levantamento de uma Persona. Consideremos também que o "Ser poeta" assim como o "Ser ator" já é em si uma máscara adotada pelo sujeito, portanto o "Estado Poético" é responsável pelo nascimento do "Poema" enquanto objeto, assim como os procedimentos na construção do mesmo trata-se de uma "ação extra cotidiana" ou como a manifestação de um "Eu criativo" que se expressa através de uma linguagem, neste caso a palavra escrita.

O Poema:

Eu que sou um vampiro subnutrido
Que vaga pelas noites alucinógenas
Não posso corromper a solidão que me nutre
Assim como a vida não pode deixar de ser contraditória
Em sua trajetória para a morte...

Na primeira estrofe do poema já é levantada a Persona do "Vampiro Subnutrido", o adjetivo usado transforma esta persona numa figura patética, um anti herói que vaga pelas noites cheias de alucinações, é  desta divagação que surge a sua reflexão na tentativa de se definir. É a solidão que o nutre, é na solidão que ele se alimenta (como é na solidão que a poesia se manifesta, na maioria das vezes), a isso ele junta um princípio universal e existencialista: A vida em seu movimento em direção a morte.
Aqui ele começa digamos a esboçar uma imagem que é uma tentativa de definição de si mesmo: Um ser notívago em busca, digamos de "sangue novo" que tem consciência que a existência está destinada a dissolução inevitável.

Eu que vivo apenas para ser uma transição
Entre o real e o imaginário
Andarilho dos subúrbios,
Sem alvará, vaidade, sem ancestrais,
Nascido do caos da civilização,
Cidadão sem pátria e sem religião,
Anelante anêmica criatura,,,

Na mesma estrofe há a continuidade, digamos do "retrato" que se quer expor: Esta declaração "de viver apenas para ser uma transição entre o real (sócio-histórico)  e o imaginário (território do simbólico) é o reconhecimento de sua vocação enquanto artista (poeta), que opera a transição entre sua realidade interior (que inclui sua imaginação, inclusive no que se relaciona a si mesmo) para a sua realidade de fato (o seu estar no mundo), e vice-versa, a imaginação interferindo na realidade concreta e a realidade influenciando o seu mundo imaginário (o imaginário segundo Gaston Bachelard). E por fim ele define também sua auto imagem social (real) : Andarilho dos subúrbios, no sentido que ele se define como um ser que caminha a margem, na periferia, não apenas no sentido geográfico, mas também humano. Sem alvará (isto é sem licença de uma autoridade oficial qualquer), sem ancestrais (sem antepassados que possa usar como referência, ou justificativa pelo aquilo que ele é), nascido mesmo de uma situação extrema e caótica que é como ele encara a civilização atual, sem vínculos nacionalistas e sem credo (sem teogonia como diz Drummond no poema "José"). Fecha a  sua auto definição como uma criatura ofegante e anêmica, portanto reforçando a sua auto imagem (imaginária) como " O Vampiro Subnutrido".

Prefiro a noite... Antecipar o dia...
Rasgar o calendário, caminhar no sentido anti-horário,
Anteceder o dilúvio,
Aparar as desgraças do mundo num tubo de ensaio...

Prefiro a noite...
Luzes de neon, minha aflição aparvalhada,
O silêncio mórbido das madrugadas,
A lua mudando a minha fisiologia...

A noite aqui deve ser considerada enquanto uma atmosfera simbólica que este "Vampiro" (como a Persona se define) respira, vive e se locomove,. Uma noite que vem antes do dia e que na verdade o antecipa. Os atos de rasgar simbolicamente o calendário e caminhar no sentido anti-horário denota o seu caráter  subversivo que rompe com as convenções de tempo-espaço, a ponto de manter um distanciamento das desgraças que o mundo apresenta (como um cientista que pudesse colher as fatalidades para estudá-las no laboratório). E assim ele vive de uma aflição abobalhada, no silêncio e na solidão onde se reconhece em processo de transformação, uma transformação que age inclusive sobre o seu corpo, afetando sua aparência e os seus órgãos. (sua fisiologia enquanto ser orgânico).

Eu que não tenho moradia,
Que vivo a noite vivendo o dia,
Que tenho a dívida maior do mundo,
E carrego a cruz que foi de Cristo...
Tenho chagas que são profundas
E tenho sonhos já carcomidos...

Aqui inicia-se a segunda parte do texto, onde a Persona volta a questão social e existencial, é uma tentativa de definir sua marginalidade diante da sociedade vigente. Este ser que se nutri da solidão da noite e que vaga pelos subúrbios é um ser que não tem moradia ( o que reforça a sua marginalidade) e que mesmo durante o dia vivencia as trevas (o que evidencia o seu estado psicológico), carrega um peso moral (a culpa, o pecado original) que lhe foi imposto, deixando marcas profundas e destruindo seus sonhos. É um estado de espírito que é exposto, uma confissão feita diante do espelho no ato em que executa o seu auto-retrato.

Eu que sou regido pelo sol,
Que trago o fogo em labaredas,
Trago a lua como estandarte
E os planetas sobre os meus dedos...

Para concluirmos a última estrofe estabelece uma contradição. Afinal este "Vampiro Subnutrido" que tanto prefere a noite se define como um ser regido pelo sol (portanto do signo de leão) e como Prometeu é o portador do "fogo vivo", e a lua é na verdade seu estandarte e os planetas, portanto estão sobre o seu controle ou como anéis que ele usa para se enfeitar. As imagens aqui são por demais subjetivas, mas operam no corpo do poema uma reação que impulsiona a Persona para frente. O retrato está completo (ou pelo menos o seu esboço) , mas é apenas um  auto-retrato entre muitos outros (possíveis), é apenas o registro de um momento (entre tantos outros), de um estado de espírito que o artista vê no seu espelho subjetivo e registra na sua tela imaginária. 

 BALADA DO HOMEM-CAVALO.

A exemplo de "Auto-Retrato" este poema também levanta uma Persona específica (o homem cavalo) que da mesma forma trata-se de um "EU" se auto definindo através do seu enunciado. É um poema que possuí uma vocação expressionista, no sentido que utiliza-se dos recursos do exagero e da distorção com o objetivo de ressaltar os sentimentos contidos no texto, isto se dá na sugestão de imagens contundentes que reforça o caráter da Persona apresentada.

Aqui na metrópole magnânima,
Entorpecida, narcotizada com ópio e heroína,
Megalópole embrutecida,
Com rios apodrecidos e deteriorados
E chaminés colossais sobre o horizonte...

A primeira estrofe apresenta a cidade na visão da Persona. trata-se de uma cidade doente (entorpecida e narcotizada). Uma cidade embrutecida com seus rios podres e com chaminés como gigantes despontando no horizonte. Portanto esta visão possuí ao mesmo tempo uma característica sublime (no sentido do imensamente grande) quanto grotesca (com suas distorções e irregularidades).

Grito o meu grito cheio de ecos,
Berro atômico estridente,
Trafego os meus pés pesados,
O meu corpo suspenso pelos ombros,
Os meus olhos vermelhos esbugalhados,
O meu hálito amargo pela manhã...

É nesta cidade que a Persona se locomove (trafega nas suas próprias palavras). Seus gritos embora com a potência atômica são cheio de ecos e apenas ressoam sem resposta na imensidão da metrópole. A  persona pode ser caracterizada como "um cavalheiro da triste figura contemporâneo" que esbraveja não com "moinhos de vento" mas com "chaminés colossais que despontam no horizonte." O seu corpo a exemplo da cidade é um corpo também embrutecido que carrega o peso da sua própria existência que reflete na sua psicologia e fisicidade (os pés pesados, o corpo suspenso pelos ombros, os olhos vermelhos esbugalhados, o hálito amargo pela manhã).

Em meio a enxofre e gasolina
Os motoristas soltam suas vísceras sobre os semáforos,
E seus escarros sobre o asfalto,
Que é mais um rio negro e metálico
Fluindo para a boca do inferno...

O seu habitat é o asfalto que é como um rio negro e metálico, e como o rio Eufrates desemboca no inferno, aqui também é explicitada a violência deste ambiente onde motoristas chegam a soltar suas vísceras e seus escarros sobre o asfalto, por isso trata-se de um rio turbulento onde trafegam não homens mas feras prontas a atacar. A cidade é "umbral terreno" onde pessoas vagam perdidas e embrutecidas tanto quanto a cidade.

Escondo-me sobre cubículos amarelados
Onde durmo o meu sono
Que é mais uma morte prematura,
Onde pela manhã ressuscito,
Não como Lázaro
Mas como um demônio de sete cabeças
Ou como um centauro
Na minha condição
De ser homem e ser cavalo!

Mas nesta cidade com toda a sua magnanimidade é em cubículos amarelados que ele repousa, e o seu repouso como ele diz é uma espécie de morte diária, onde pela manhã como num ritual perpétuo ele ressuscita, não como Lázaro (com sua humanidade, humanidade esta que lhe é negada), mas como uma espécie de monstro mítico e assustador para si mesmo, ou na figura de um centauro, metade homem e metade cavalo. E é a sua condição social que lhe trás de repente esta consciência de homem embrutecido pelas contingências que o transforma em um animal de carga. Mas este "homem-cavalo" ao se reconhecer se humaniza através da sua revolta, e o seu discurso ácido é o testemunho desta humanização.




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM.

O EX-MÁGICO DA TABERNA MINHOTA

DESENHO.