DEVANEIOS...




DEVANEIOS:

...e havia chaves diversas. Todas numeradas. Com os números das salas correspondentes. Dos oráculos da vida e da morte. Todas dentro de uma caixa metálica. E os que por lá passavam pressentiam a chegada do fim se aproximando. Muitos inconscientes. Imersos não sei onde.

E ao chegar ao portão notou que havia esquecido uma chave no bolso. Número quatorze. Sou eu que estou pensando? Ou são murmúrios além. Fantasmas. Mortos que ainda estão presentes no ar. Na mobília. Mas agora o momento zero. O não-lugar. Onde eu estava? Neste tempo creio que ainda vivia mesmo que precariamente. Mas agora? O que restava era a inércia. O cotidiano. Os dias. Os meses. Os anos passando e ao mesmo tempo estáticos. Imobilizados. A onde?
A janela aberta do quarto e a mesma paisagem de sempre. Melhor enrolar um baseado. Deitar na cama. Mas o apito estridente soa. O deserto. É tudo dentro. Preciso olhar pra fora. Eu repito. Lá está a vida. Aqui é a morte. Assisto então a telenovela. Procuro esquecer de mim. Mas o que esquecer? Do que me lembro de fato? Foi real? Pesadelo-devaneio-divagação-ilusão. Pura invenção. O quê? Quando?
De tempo em tempo ele acendia um cigarro e olhava a janela. Via a fábrica lá do outro lado da rua. Como sempre. Ele quem? De quem eu falo? Foi a tanto tempo. Ou foi agora? Havia chovido. A tarde estava fria. Na casa só se ouvia o som de dois televisores ligados. A luz acesa no quarto e livros espalhados na cama. O barulho do avião passando. Isso foi quando?
Havia uma chácara além do fundo do quintal do Sr. Laerte que tinha duas filhas. Ele criava porcos, galinhas e patos e sua casa era de madeira. Além da chácara era a mata. Havia uma pequena estrada que delimitava a fronteira entre a chácara e a mata. Ali andávamos de bicicleta e corríamos e caçávamos rãs em noites de lua cheia. Mas quando? Talvez tudo não passe de imaginação. Mas de quem? Eu mesmo não sou capaz de me lembrar de nada. Não sei mesmo onde estou agora. Se estou em algum lugar estou onde? Ou quando?
Um dia resolveu ir para o interior. Uma vida natural. Pensou. Alternativa. Faria alguma atividade bucólica. Plantaria uma horta. Cozinharia. Escreveria um romance. Poemas. Pintaria quadros. Faria esculturas e artesanato. Andaria pelas estradas. Pelos prados. Tomaria banho de cachoeira. Teria poucas roupas. O que foi tudo isso? Outro sonho? Santa inocência. Era assim eu tão imbecil? E agora? É o que sempre me pergunto inutilmente. E tudo segue. Anoitece? Ou a noite é eterna? E o dia é um sonho? Talvez eu apenas durma e sonhe que acordo e que volto a dormir e sonhar que acordo e assim por diante.
E quando chegou o Edvaldo ele ficou desconcertado. Acabara sua vida boa. As suas férias. Já não esperava por ele. Não podia acreditar mas lá estava ele. De pé na sua frente. Talvez eu seja parte de um sonho. O sonho de alguém. E tudo isso deve estar no fim. Talvez eu seja o personagem de um romance. Mas porque então os pensamentos? A divagação incessante? Contínua? Amanhã ou hoje ou ontem. Estarei lá no mesmo lugar? Na mesa? No corredor a onde passam macas? Cadeiras de roda? Espectros? Fantasmas? Eu e os meu pensamentos ali na penumbra invisível para todos. Ausente do mundo.
Estava mergulhado em dívidas e ainda estava só. Apenas eu comigo mesmo. O que é redundante. Gastava mais do que recebia de salário. E cada mês estava novamente a fazer especulações de como iria soldar as dívidas que se acumulavam a ponto de dele ter perdido sua identidade humana. Passando a ser um número de uma determinada estatística. Daqueles que devem e não sabem como saldar as dívidas. Logo. Talvez ele estivesse morto e nada disso teria enfim nenhuma importância. Nem os seus sonhos. Ou melhor as suas fantasias construídas ao longo de tantos anos.
Exatamente agora eu estava só. Tudo havia acabado. Restando-me o trauma. O fracasso. Os pensamentos doentios. Nada mais.
De vez em quando ainda me masturbava e ejaculava o que era um alívio e uma frustração ao mesmo tempo. Eu era eu. E a consciência de uma determinada identidade era mais cruel do que por exemplo a amnésia. O esquecimento total de quem eu era ou sou ou o que serei. Enfim o que é o tempo? Há algo de real nisto tudo? não sei.
Hoje enfim estou aqui de novo. No corredor. No meu posto. Não sei quem sou. Mas sou parte deste mobiliário obsoleto. Integrante desta mesa. Desta cadeira. Deste corredor. Como um vaso que estivesse ali vazio. Sem planta. Ali como um elemento decorativo e inútil.
Querer ver ou entrever tanto faz. Compor um longo poema. Mas para quê? Não há nada a dizer. No entanto insiste-se em escrever. Nem que for para passar o tempo ocioso. A espera angustiante do fim.
Um silêncio mortal estava estampado em seu rosto. O médico disse que ele não iria mais comer via oral. Era uma sonda que agora levaria o alimento até as vias de fato. Para quê esta vida? Isto é vida? Nenhuma palavra mais a dizer. O medo e nada. Mas medo de quê? Em volta outros sucumbiam ou estavam prestes a sucumbir. É isto a morte? Pensou consigo mesmo. Mas neste ponto o que fazer? O corpo não responde. Melhor apagar-se pouco a pouco. Mas é cruel tudo isso. Deixar o coração parar de bater. O corpo endurecer. E depois o caixão. Os ritos. Rezas inúteis e hipócritas. E a terra e tudo acabado. As pessoas voltam para casa. Almoçam e jantam. Tempo de esquecer. Uma sombra que passou pela Terra. Nada mais. Fim.
Como um zumbi eu permaneço aqui neste corredor de hospital. Moribundos passam por mim e suponho que também mortos. Invisíveis e perplexos. Macas e cadeiras de rodas. Homens e mulheres de branco. Serão também mortos. Não. Estes ainda vivem. Mas para quê? Cada um deve saber o sentido da sua existência.
Conversas sobre futebol. De certo passa o tempo. É tudo tão inútil que o suicídio não parece má idéia. Não estar mais aqui. Não pensar. Isto seria um alívio. Pois o que pesa mais é haver os pensamentos. Esta tagarelice sem sentido. Este Eu que fala sem falar. Esta especulações que no fim não dão em nada. Tudo por uma necessidade financeira. Sobreviver as intempéries. sobreviver a falência. Sobreviver. Eis tudo. Sobre-vida. Ainda um suspiro antes do silêncio. E no fim é tudo igual. Os que partem e os que ficam. E eu aqui sujeito a tudo isso por um salário irrisório. Para pagar contas que se avolumam em juros e correção monetária. Tudo isto a troco do quê? É o que me pergunto. Por pura insistência ou ignorância. Enfim. Nada a dizer.
Divagações. Devaneios. Chaves e portas. Os olhares dos moribundos. As pessoas que passam e um dia estarão ausentes. Assim como eu apenas não mais existirão. É isto a vida? Que vida?
Acabei de jantar no refeitório. A comida consistia em arroz e feijão. Uma espécie de panqueca recheada de carne moída. Um pudim como sobremesa que não consegui distinguir exatamente do que era feito. A salada de feijão e beterraba ralada. A comida era pesada. E só comi porque assim o tempo passa de alguma forma. Todo minuto é uma conquista. Passar a noite entrando na madrugada. Mas ainda é muito cedo. Serão dez horas? Digo vinte duas horas? Se for ainda é cedo. Olho para caixa de chaves. Tenho vontade de vomitar. Estou só. Repito isto o tempo todo como para me convencer. Estar só não é tudo. Estou mudo e só. Porque justamente comigo tudo isso tem de acontecer? Porque? Não há resposta. Nem um eco retorna. O que fiz da minha vida? Para onde estou indo? Tantas perguntas inúteis que insisto em fazer. Estou só. Mas eu já sei isso e nada mudou. E porque repito? Talvez eu precise esclarecer a mim mesmo desta condição. É tudo tão triste que tenho vontade de me matar. Mas nem para isso eu tenho animo. Gostaria de uma morte silenciosa. Sem escândalos. Sem lamúrias. Apenas deitar e morrer. Nada mais.
Tentei dormir. Mas não consegui. Os pensamentos estavam fervilhando como água quente. Ouvia barulhos de rodas que passavam nos corredores. De macas provavelmente. Levantei-me vesti o velho tênis e munido da caixa de chaves saí da sala quatorze e a fechei. Já era de madrugada. Fui fumar um cigarro na entrada do prédio. Fazia frio. Alguém comentava uma morte recente. Um dia serei eu. Pensei. Mas não hoje. Hoje ainda carrego o peso do meu corpo e dos meus pensamentos. Fumei e voltei para a mesa a onde trabalho. Tudo isso deve ser um pesadelo. Mas não. É tudo real. Mas não consigo localizar onde tudo começou ou onde tudo acabou. Fui ao orelhão e liguei para alguém inexistente ou melhor alguém que não existe mais a não ser como um espectro na minha memória. Por um momento esqueci quem eu era. Coisas vieram a memória.
Ele gostava da varanda. Mas tinha medo da cruz que estava enfiada no meio do pasto e por isso não se arriscava a descer as escadas e dar alguns passos pelo mato que rodeava a casa. Ficava ouvindo os mugidos do gado no curral. Olhava as estrelas. Os dias e as noites neste tempo eram longos.
Este não sou eu. Este é um outro. Haverá outros como eu neste deserto?
Novamente tentei dormir sem sucesso. Ouço vozes. Murmúrios. Sou eu pensando. Novamente entrei na sala e saí. A noite e de madrugada os faxineiros trabalham. As máquinas como que falam. Gritam. Novamente liguei para alguém desconhecido na esperança de ouvir alguma voz verdadeira do outro lado. Mas tudo que ouvi foi uma voz gravada. Anônima. Não há mais gente na Terra. Tudo foi desumanizado. Existem pessoas. Mas gente não. Eu mesmo não sei que espécie de ser eu sou. Se eu realmente existo. E se existo porque existo. Muitos se perguntam se vale a pena mesmo esta existência. Outros mais exaltados dizem mesmo que a vida é boa. Mas que vida? Deve haver alguma razão para tudo isso. É o mistério. Dizem. Mas sempre se diz isso quando não se pode explicar. Quando não se encontra sentido pras coisas. Quando não se pode nomear. Classificar. Rotular. Numerar. No fim não passamos de números. Mesmo depois de mortos ainda somos números. Nada mais.
Fim de uma longa noite. Daqui a pouco irei embora. Para casa. Provavelmente. Chegarei em casa farei afagos nos cachorros. Nina está grávida. Beberei duas ou mais xícaras de café. Fumarei um cigarro. Um baseado. Fecharei a porta do quarto. Irei chorar eu sei. Eu sempre choro. Tentarei dormir um pouco. Esquecer de tudo. Com tanto que eu não sonhe. Sinto-me esvaziado. Sinto-me desesperançado. Algum dia me senti esperançado? Não me lembro. Cada vez mais me lembro menos de tudo.


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