MIRE E VEJA.
MIRE
VEJA:
Para os meus pais: Messias e Dorinha.
No Milho Verde
O sol desperta rei
Por de trás das montanhas,
A lua ainda branca no céu,
Rasto tênue e transparente...
Os galos cacarejam
Os seus cocoricós desarmoniosos
Saudando o dia,
Um outro
Depois de outro
No seqüencial da semana
Após semana,
Mês a mês
Dos anos que se findam
E se iniciam na eternidade,
Um outro
E outro
Sempre novo e velho ficando,
Só na memória resguardado:
Os acontecimentos memoráveis
E os de menos importância
Se transformando
No contar
E recontar as estórias,
Invencionices e lendas
Se tornando,
Quem sabe instaurando o mito
Pouco a pouco se formando
Como
As pedras
No caminho...
Por Milho Verde
Eu passei
Sem registro de passagem
Ainda menino no iniciar dos anos,
Com o olhar puro para as coisas
Que se apresentam assim verdadeiras
No exato jeito de sê-las.
Agora traduzo
Não as coisas que vejo
Mas o que sinto ao vê-las:
Quando na cidade o sol desperta
Por de trás dos prédios
Eu penso no Milho Verde:
O milho amadurecendo,
A mandioca cozinhando no fogão a lenha,
O angu bem grosso,
O feijão com torresmo,
O biscoito assando no forno.
O cheiro do mato,
O esterco no curral,
Flores que desconheço pelos nomes...
O nome das coisas
De tudo e tudo desconheço,
Ignoro a natureza, os seus ciclos.
Mal e mal re-conheço as estações.
E nestas paragens por onde ando
Quase sem sombras de árvores,
Nos subterrâneos da cidade-gigante-de-luzes
Perco o parâmetro
E embaralho as cartas do jogo.
A onde estão as sombras das montanhas
Que se estende pelos pastos?
Longe...
Ao norte,
À beira do Jequitinhonha,
A onde estão as pedras seculares
Aparentemente imóveis...
Mas agora aqui no Milho Verde
A vida transcorre
Com as estações do ano,
As montanhas são monumentos pré-históricos
De uma estabilidade
Prestes a se romper.
Montanhas que parecem se mover
Mas, que, no entanto estão estáticas
Delimitando o horizonte.
Levou anos
E anos
Para que este momento
Acontecesse de repente,
Anos e anos
De formação geológica,
De erosão e sedimentação de rochas.
Foram necessários séculos
Para que acontecesse neste momento
O meu olhar plasmado,
Perplexo
Ao olhar as quedas d’água
E ouvir o seu murmúrio burburejante.
Sinto-me agora como um bicho
Que se camuflasse numa pedra,
E como esse bicho-pedra
Eu observo a paisagem.
Aqui quando chove
Chove chuva,
Por que aqui
A chuva é chuva
E o vento é vento
E a grama é grama
E a pedra é pedra.
Aqui tudo é como é.
As escadas de pedras
Se estendendo pelo campo afora
Descendo as encostas íngremes
De vegetação rasteira.
Aquele assoalho
Estendido pelos séculos e séculos.
E os veios d’água como veias
No corpo daquela montanha,
De pedras
Sedimentadas.
A água como sangue
Cristalino e transparente
Descendo
Ao encontro do rio:
A grande artéria.
A cidade respira pacata
No alto da montanha,
O vento roçando as árvores,
Nas ruas onde a grama cresce
Como num jardim,
E a cidade como uma estufa
Onde a flores procriam livremente.
Aqui a vida passa calma,
A vida acontece lentamente,
O gado pasta pelas ruas,
As vacas ruminam sua eterna paciência bovina
Como quem murmura uma reza...
De tempo em tempo
Eu tenho saudades
Do menino que não fui
Vivendo no Capivari,
De que fiquei sabendo
Que sendo de capivaras
O nome de origem.
Do que vivi e não vivi,
Do nascido e não nascido,
Do que fui e não fui,
Filho e pai
Um dia no caminho
Passando por São Gonçalo,
O do rio, o das pedras,
A igreja em cima do morro
Que se avista ao longe
A torre,
E que se ouve o silvo dos ventos
E a voz
Da imóvel montanha.
Na eternidade
Do lugar.
A vida se ilude nas distâncias.
Dá-se que aquele menino
Se parecia comigo
Nas maneiras e nos modos,
No jeito de ser do lugar,
Da família mesmo de todos de lá,
Iguais aos outros meninos
No contorno dos olhos,
Na íris...
Foi por ali que eu passei
Na revisão de muitas histórias
Contadas
E recontadas,
Da família dissolvida,
Diluída na cidade grande,
As fisionomias
Perdidas
Agora se
Recompondo...
Eu olhava os meninos
No ônibus que corta a serra
Pela estrada nova,
E de nada sabia
Da vida dos que ali viviam,
Dos que por ali passavam
No dia a dia, indo e vindo
Pelas distâncias.
E o horizonte desfrutável
Que se aproximava
E se distanciava
Dos meus olhos perdidos
Na vegetação rasteira,
Nos rochedos,
No avolumar das montanhas,
Das casas
Despontando
Solitárias
Pelo caminho,
A linha vermelha
Da estrada a se perder
Numa neblina púrpura,
Rubra:
Como num sonho
O Capivari
Mudado em quase nada
Ainda ali
O mesmo
E outro
Diverso
Lugar...
É de não conhecer
As línguas todas de falar
Nem mesmo a que manejo,
Conhecimentos vários
No esforço do pensar
Um pensamento atrás do outro
No atropelo das idéias,
É que me surge esta necessidade.
É porque a ignorância
É maior do que o saber,
E é porque me vêm estes surtos,
Esta palpitação,
Este alongar
Do tempo da memória,
Este lembrar
E esquecer de repente.
No apresentável das palavras,
No justo dizer das coisas:
Nomes e qualidades
Do distante próximo instante próspero
No desencadeado
Perto-longe...
Longe-perto...
No claro escuro das coisas,
Nos contornos...
Galinhas nas ruas ciscando...
As sombras das árvores
São mais sombras de mais árvores,
O vento passando rente
Levantando a poeira
Do chão,..
Os carros se vêem
De longe
Chegando,
A linha da estrada se afinando em espirais,
O céu azul: Quase sem nuvens,
Se não um rasto: Quase branco.
As casas de portas abertas,
As mulheres conversando,
As vaquinhas mugindo e mastigando...
Ali é o Milho Verde,
Jabuticabeiras e cachos de bananas,
Os jardins floridos
Como nunca se viu,
Bromélias e flores selvagens,
As trepadeiras subindo muros e árvores,
As pedreiras sólidas
Das casas de antigamente
E maciças portas,
Madeira de lei e reboque de bosta,
O pé direito alto,
O porão e o sótão,
Chuveiro de serpentina,
A lenha estalando no fogão...
Obs.: Milho Verde, Capivari e São Gonçalo Do Rio Das Pedras. Povoados situados entre duas cidades históricas: Diamantina e Serro, Centro Norte de Minas Gerais.
Para os meus pais: Messias e Dorinha.
No Milho Verde
O sol desperta rei
Por de trás das montanhas,
A lua ainda branca no céu,
Rasto tênue e transparente...
Os galos cacarejam
Os seus cocoricós desarmoniosos
Saudando o dia,
Um outro
Depois de outro
No seqüencial da semana
Após semana,
Mês a mês
Dos anos que se findam
E se iniciam na eternidade,
Um outro
E outro
Sempre novo e velho ficando,
Só na memória resguardado:
Os acontecimentos memoráveis
E os de menos importância
Se transformando
No contar
E recontar as estórias,
Invencionices e lendas
Se tornando,
Quem sabe instaurando o mito
Pouco a pouco se formando
Como
As pedras
No caminho...
Por Milho Verde
Eu passei
Sem registro de passagem
Ainda menino no iniciar dos anos,
Com o olhar puro para as coisas
Que se apresentam assim verdadeiras
No exato jeito de sê-las.
Agora traduzo
Não as coisas que vejo
Mas o que sinto ao vê-las:
Quando na cidade o sol desperta
Por de trás dos prédios
Eu penso no Milho Verde:
O milho amadurecendo,
A mandioca cozinhando no fogão a lenha,
O angu bem grosso,
O feijão com torresmo,
O biscoito assando no forno.
O cheiro do mato,
O esterco no curral,
Flores que desconheço pelos nomes...
O nome das coisas
De tudo e tudo desconheço,
Ignoro a natureza, os seus ciclos.
Mal e mal re-conheço as estações.
E nestas paragens por onde ando
Quase sem sombras de árvores,
Nos subterrâneos da cidade-gigante-de-luzes
Perco o parâmetro
E embaralho as cartas do jogo.
A onde estão as sombras das montanhas
Que se estende pelos pastos?
Longe...
Ao norte,
À beira do Jequitinhonha,
A onde estão as pedras seculares
Aparentemente imóveis...
Mas agora aqui no Milho Verde
A vida transcorre
Com as estações do ano,
As montanhas são monumentos pré-históricos
De uma estabilidade
Prestes a se romper.
Montanhas que parecem se mover
Mas, que, no entanto estão estáticas
Delimitando o horizonte.
Levou anos
E anos
Para que este momento
Acontecesse de repente,
Anos e anos
De formação geológica,
De erosão e sedimentação de rochas.
Foram necessários séculos
Para que acontecesse neste momento
O meu olhar plasmado,
Perplexo
Ao olhar as quedas d’água
E ouvir o seu murmúrio burburejante.
Sinto-me agora como um bicho
Que se camuflasse numa pedra,
E como esse bicho-pedra
Eu observo a paisagem.
Aqui quando chove
Chove chuva,
Por que aqui
A chuva é chuva
E o vento é vento
E a grama é grama
E a pedra é pedra.
Aqui tudo é como é.
As escadas de pedras
Se estendendo pelo campo afora
Descendo as encostas íngremes
De vegetação rasteira.
Aquele assoalho
Estendido pelos séculos e séculos.
E os veios d’água como veias
No corpo daquela montanha,
De pedras
Sedimentadas.
A água como sangue
Cristalino e transparente
Descendo
Ao encontro do rio:
A grande artéria.
A cidade respira pacata
No alto da montanha,
O vento roçando as árvores,
Nas ruas onde a grama cresce
Como num jardim,
E a cidade como uma estufa
Onde a flores procriam livremente.
Aqui a vida passa calma,
A vida acontece lentamente,
O gado pasta pelas ruas,
As vacas ruminam sua eterna paciência bovina
Como quem murmura uma reza...
De tempo em tempo
Eu tenho saudades
Do menino que não fui
Vivendo no Capivari,
De que fiquei sabendo
Que sendo de capivaras
O nome de origem.
Do que vivi e não vivi,
Do nascido e não nascido,
Do que fui e não fui,
Filho e pai
Um dia no caminho
Passando por São Gonçalo,
O do rio, o das pedras,
A igreja em cima do morro
Que se avista ao longe
A torre,
E que se ouve o silvo dos ventos
E a voz
Da imóvel montanha.
Na eternidade
Do lugar.
A vida se ilude nas distâncias.
Dá-se que aquele menino
Se parecia comigo
Nas maneiras e nos modos,
No jeito de ser do lugar,
Da família mesmo de todos de lá,
Iguais aos outros meninos
No contorno dos olhos,
Na íris...
Foi por ali que eu passei
Na revisão de muitas histórias
Contadas
E recontadas,
Da família dissolvida,
Diluída na cidade grande,
As fisionomias
Perdidas
Agora se
Recompondo...
Eu olhava os meninos
No ônibus que corta a serra
Pela estrada nova,
E de nada sabia
Da vida dos que ali viviam,
Dos que por ali passavam
No dia a dia, indo e vindo
Pelas distâncias.
E o horizonte desfrutável
Que se aproximava
E se distanciava
Dos meus olhos perdidos
Na vegetação rasteira,
Nos rochedos,
No avolumar das montanhas,
Das casas
Despontando
Solitárias
Pelo caminho,
A linha vermelha
Da estrada a se perder
Numa neblina púrpura,
Rubra:
Como num sonho
O Capivari
Mudado em quase nada
Ainda ali
O mesmo
E outro
Diverso
Lugar...
É de não conhecer
As línguas todas de falar
Nem mesmo a que manejo,
Conhecimentos vários
No esforço do pensar
Um pensamento atrás do outro
No atropelo das idéias,
É que me surge esta necessidade.
É porque a ignorância
É maior do que o saber,
E é porque me vêm estes surtos,
Esta palpitação,
Este alongar
Do tempo da memória,
Este lembrar
E esquecer de repente.
No apresentável das palavras,
No justo dizer das coisas:
Nomes e qualidades
Do distante próximo instante próspero
No desencadeado
Perto-longe...
Longe-perto...
No claro escuro das coisas,
Nos contornos...
Galinhas nas ruas ciscando...
As sombras das árvores
São mais sombras de mais árvores,
O vento passando rente
Levantando a poeira
Do chão,..
Os carros se vêem
De longe
Chegando,
A linha da estrada se afinando em espirais,
O céu azul: Quase sem nuvens,
Se não um rasto: Quase branco.
As casas de portas abertas,
As mulheres conversando,
As vaquinhas mugindo e mastigando...
Ali é o Milho Verde,
Jabuticabeiras e cachos de bananas,
Os jardins floridos
Como nunca se viu,
Bromélias e flores selvagens,
As trepadeiras subindo muros e árvores,
As pedreiras sólidas
Das casas de antigamente
E maciças portas,
Madeira de lei e reboque de bosta,
O pé direito alto,
O porão e o sótão,
Chuveiro de serpentina,
A lenha estalando no fogão...
Obs.: Milho Verde, Capivari e São Gonçalo Do Rio Das Pedras. Povoados situados entre duas cidades históricas: Diamantina e Serro, Centro Norte de Minas Gerais.
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