O CASAMENTO DA FILHA DO CORONEL.
O CASAMENTO DA FILHA DO CORONEL: (Curta Metragem)
Neste sábado aconteceu algo inusitado na cidade chamada Boa Aventura, no sul de Minas Gerais. Ermelindo e Rômula casaram. Até aí nada demais, todos os fins de semana há casamento na cidade. Ermelindo filho do Coronel Raimundo e Rômula filha de José Maria, também Coronel já namoravam há mais ou menos uns dois anos anos. Menina novinha já estava grávida, e o casamento era inadiável segundo o pai da noiva que não queria que sua filha, sua filhinha querida ficasse falada nas redondezas.
O casamento foi adiantado o máximo possível, de acordo com a disponibilidade da paróquia de Nossa Senhora do Rosário. O dia chegou, e era uma linda tarde de sábado do mês de agosto, o céu azul e nenhum indício de chuva, enfim uma tarde perfeita para se casar.
Todos estavam na igreja, os que foram convidados e os penetras também. Ninguém poderia perder aquele casamento, das duas famílias mais respeitadas da cidade. A igreja estava linda, toda enfeitada de flores. Era um casamento de primeira que o Coronel José Maria queria para a sua caçula. Na verdade não queria que ela casasse agora, mas diante dos fatos, o casamento não podia ser adiado.
Quando soube da gravidez da filha, ficara fulo, com vontade de estrangular Ermelindo, mas depois se acalmou. Afinal ele era mesmo um bom partido para sua filha, embora muito mais velho. Melhor assim, pra quê casá-la com um garoto mal saído das fraudas. Ermelindo era advogado formado, morava na cidade grande, o único defeito dele era ser ateu. Mas ateu ou não ateu, Coronel José Maria não abria mão do casamento na igreja, a filha vestida de branco e todo cerimonial, afinal a barriga ainda era imperceptível.
A igreja estava deveras bonita, rosas vermelhas e brancas e também ramalhetes de sempre vivas espalhadas por toda a igreja, inclusive no altar onde estava a santa padroeira. Além de todos os familiares, alguns vindo de longe, pessoas notórias da cidade estavam presentes. Dr. Adalberto, médico da família, Abílio redator de “O Berro”, um jornal que diziam ser de oposição ao atual prefeito. O prefeito com toda a sua família estavam na primeira fila, ele sempre pronto de uma hora pra outra a fazer seus discursos sofistas. Tia Candoca sempre assuando o nariz e com os olhos marejados sofria de sinusite, dizia sempre, tinha dores terríveis de cabeça. O padrinho da noiva era um bonachão, com vinte cinco anos aparentava mais velho, muito gordo e metido a comediante, não tinha religião definida, mas todos sabiam que ele freqüentava o terreiro de Mãe Maria. Estava lá também uma mulher charmosa, que não passou despercebida pelo Coronel Raimundo, que já era viúvo. Tratava-se da Senhorita Adélia Pires, jornalista do Correio da Manhã, jornal de Belo Horizonte, e estava ali para cobrir o casamento a pedido do noivo. D. Esmeralda, professora primária, estava num canto sorrindo, e para todo mundo dizia que havia alfabetizado os noivos, dizia isto com muito orgulho. Algumas outras pessoas devem ser citadas: Eunando e Bival, repentistas nordestinos que há muito tempo viviam na cidade e animavam os bailes nos fins de semana. Odara, vendedor de artesanato na pracinha, que não havia sido convidado, ficou no fundo da igreja sobre o olhar de censura de todos. E Jorge, o ex-noivo da noiva que fez questão de estar presente, para o espanto do coronel, Jorge era bancário e cuidava de alguns problemas do coronel no banco, por isso ele não pode negar a sua presença apesar dos constrangimentos.
A cidade estava lá em peso, os velhos e as crianças, as beatas que nunca faltavam a um casamento suspirando na beira do altar. Enfim estava todos lá com suas roupas de festa a espera da noiva chegar. As beatas colocavam a fofocas em dia, as crianças brincavam correndo pra lá e pra cá, os pais esbravejavam e as colocavam no lugar, mas na primeira distração lá estavam elas de novo correndo e gritando dentro da igreja. Alguns rapazes aproveitavam a ocasião para fretar com as meninas novas que sorriam timidamente.
Alguém anunciou que a noiva havia chegado num carrão preto. O noivo e os padrinhos já estavam no altar em seus devidos lugares. Mas o padre Monsenhor Luís nada de aparecer. O padrinho do noivo saiu e avisou o pai da noiva que era preciso esperar. A noiva ficou nervosa. O que estava acontecendo? O noivo fugira? Orlando, o padrinho a acalmou. Não, o noivo estava lá. Mas o padre estava atrasado, havia ido dar a extrema unção para um moribundo na cidade vizinha, mas isto já havia sido há horas. O coroinha preocupado andava de um lado pro outro, ia à sacristia, tentava ligar no celular do padre, mas nada dele atender.
Coronel Raimundo saiu também para falar com José Maria e a filha. José Maria estava esbravejando. Padre filho da puta! Hoje era lá dia de extrema unção? Será que a outra cidadezinha não tinha padre? Coronel Raimundo procurou acalmá-lo. Rômula passava mal dentro do carro, devido ao calor extremo que fazia e pelo nervosismo do atraso do casamento, Dr. Adalberto saiu e lhe ministrou um calmante. Ao retornar ao interior da igreja fez o mesmo com D. Carmem, mãe da noiva, distribui também as pilulazinhas para as beatas que ameaçavam dar chiliques, como se elas tivessem alguma coisa a ver com isso.
Havia passado das dezoito horas, que era a hora exata do casamento. Começava escurecer, todos estavam nervosos. O noivo dizia para os padrinhos: Está vendo o que dá querer casar na igreja? Será que o casamento civil não era o suficiente? Mas seu futuro sogro fazia questão, então o que ele podia fazer? O coroinha questionado e oprimido pelos membros das famílias não sabia mais o que responder. Disse que já havia ligado para o Monsenhor mais de uma vez e que o telefone não respondia. Deveria ter acontecido alguma coisa de grave. Que Deus nos proteja! Um acidente de carro, a ponte que ligava as cidade poderia ter caído. Enfim uma série de conjunturas.
Todos falavam ao mesmo tempo, o coroinha quando todos se distraíram escapuliu pela sacristia. Ele que não ia ficar ali no meio da confusão. Ligou para o padre novamente, insistiu uma, duas, três, quatro vezes. Era inútil. Ficou quietinho na sacristia a espera que tudo se resolvesse.
O tempo passava. A noiva chorava. O noivo impaciente sentou no altar. Coronel José Maria pediu pra que Coronel Raimundo entrasse com a noiva. Ele não entendeu. Então não era o pai que devia conduzir a noiva? Deixa estar, disse o pai da noiva, vou resolver isto já! O pai do noivo ficou no ar, sem saber que diacho de solução seria aquela arquitetada pelo Coronel, mas concordou. Espere mais ou menos uns vinte minutos e se dirija a porta da igreja, quando tocar o órgão você pode entrar com a minha filha, foram às orientações do Coronel. Logo ele desapareceu atrás da igreja. Coronel Raimundo ficou achando que ele iria buscar outro padre, mas não tinha idéia onde.
Coronel Raimundo seguiu as orientações de quem seria agora o seu compadre, ainda um pouco confuso quanto à solução arquitetada por ele. Sabia que o seu filho não era lá muito religioso, mas se o pai da noiva fazia questão, quem era ele para questionar. Além de tudo tinha gastado uma fortuna para enfeitar a igreja, fora o vestido da noiva que ele também pagou. Não importava qual padre realizaria a cerimônia, se bem que preferisse mesmo Monsenhor Luís que havia batizado todos os seus filhos. Bom, mas se Coronel José Maria disse que iria resolver a questão, que fosse.
O padre entrou de cabeça abaixada e se virou de costas para os fiéis. Houve um silêncio abismal dentro da igreja, as beatas atônitas se entreolhavam, tentando adivinhar quem seria este bendito padre surgido do nada. O órgão começou a tocar a marcha nupcial. As portas da igreja se abriram, e todos se voltaram para a noiva. Ao se depararem com o sogro a acompanhando estranharam mais ainda. Agora era o pai da noiva que havia sumido? Deveras este casamento estava ficando muito bizarro.
A noiva acompanhada do seu sogro atravessou majestosamente a igreja, sorrindo como é de praxe. O sogro ainda não entendendo exatamente como havia surgido o padre. Aproximaram-se do altar, o sogro e pai do noivo entregou a noiva para o seu filho. E o padre que permanecia de costas virou-se.
Foi um assombro geral, no altar vestido de padre estava o pai da noiva. Odara no fundo da igreja caiu na gargalhada e pensou: Então sou eu que sou louco? A mãe da noiva envergonhada cobria o rosto enquanto repetia para si mesma: Santo Deus... Santo Deus... O noivo apenas sorriu de canto dos lábios: Que sogro maluco ele foi arrumar. Os padrinhos não sabiam o que fazer. Apenas se olhavam sem entender nada. A noiva bambeou as pernas e quase desmaia, mas se manteve firme. As beatas escandalizadas falavam uma com as outras, mas não ousavam protestar alto: Heresia... Heresia... – repetiam em voz baixa. O pai do noivo olhou nos olhos do seu agora compadre e exclamou em voz alta: Que prossiga a cerimônia!
Coronel José Maria fez as orações de praxe que conhecia de cor. Os noivos trocaram as alianças. Solenemente o coronel os declarou marido e mulher. Os noivos se beijaram e logo foram saindo acompanhados dos seus respectivos padrinhos, as crianças saíram em debandada e depois um por um foram saindo da igreja, alguns rindo e outros escandalizados. O Coronel devolveu o hábito na sacristia onde o coroinha estava escondido. No lado de fora as pessoas foram se dispersando. A festa seria na fazenda do Coronel Raimundo. Os convidados entraram em seus automóveis e se dirigiram para a fazenda.
No outro dia foi um comentário geral na cidade. O padre que havia passado mal estava hospitalizado na cidade vizinha. A festa havia sido um estrondo, com danças, comida em fartura. Os noivos viajaram para a sua lua de mel. Coronel José Maria visitou o padre no hospital e pediu desculpas em confissão. O padre ainda debilitado o perdoou, mas disse que o casamento não havia sido válido. O coronel pensou: Deixa pra lá, o que importava mesmo é que sua filha estava casada, e o que importava era mesmo no civil.
Por muito tempo as pessoas comentaram o casamento dos filhos dos coronéis. As beatas quando viam o Coronel José Maria na rua ou nas missas de domingo, faziam o nome do padre e cochichavam baixinho: Herege... Herege...
Neste sábado aconteceu algo inusitado na cidade chamada Boa Aventura, no sul de Minas Gerais. Ermelindo e Rômula casaram. Até aí nada demais, todos os fins de semana há casamento na cidade. Ermelindo filho do Coronel Raimundo e Rômula filha de José Maria, também Coronel já namoravam há mais ou menos uns dois anos anos. Menina novinha já estava grávida, e o casamento era inadiável segundo o pai da noiva que não queria que sua filha, sua filhinha querida ficasse falada nas redondezas.
O casamento foi adiantado o máximo possível, de acordo com a disponibilidade da paróquia de Nossa Senhora do Rosário. O dia chegou, e era uma linda tarde de sábado do mês de agosto, o céu azul e nenhum indício de chuva, enfim uma tarde perfeita para se casar.
Todos estavam na igreja, os que foram convidados e os penetras também. Ninguém poderia perder aquele casamento, das duas famílias mais respeitadas da cidade. A igreja estava linda, toda enfeitada de flores. Era um casamento de primeira que o Coronel José Maria queria para a sua caçula. Na verdade não queria que ela casasse agora, mas diante dos fatos, o casamento não podia ser adiado.
Quando soube da gravidez da filha, ficara fulo, com vontade de estrangular Ermelindo, mas depois se acalmou. Afinal ele era mesmo um bom partido para sua filha, embora muito mais velho. Melhor assim, pra quê casá-la com um garoto mal saído das fraudas. Ermelindo era advogado formado, morava na cidade grande, o único defeito dele era ser ateu. Mas ateu ou não ateu, Coronel José Maria não abria mão do casamento na igreja, a filha vestida de branco e todo cerimonial, afinal a barriga ainda era imperceptível.
A igreja estava deveras bonita, rosas vermelhas e brancas e também ramalhetes de sempre vivas espalhadas por toda a igreja, inclusive no altar onde estava a santa padroeira. Além de todos os familiares, alguns vindo de longe, pessoas notórias da cidade estavam presentes. Dr. Adalberto, médico da família, Abílio redator de “O Berro”, um jornal que diziam ser de oposição ao atual prefeito. O prefeito com toda a sua família estavam na primeira fila, ele sempre pronto de uma hora pra outra a fazer seus discursos sofistas. Tia Candoca sempre assuando o nariz e com os olhos marejados sofria de sinusite, dizia sempre, tinha dores terríveis de cabeça. O padrinho da noiva era um bonachão, com vinte cinco anos aparentava mais velho, muito gordo e metido a comediante, não tinha religião definida, mas todos sabiam que ele freqüentava o terreiro de Mãe Maria. Estava lá também uma mulher charmosa, que não passou despercebida pelo Coronel Raimundo, que já era viúvo. Tratava-se da Senhorita Adélia Pires, jornalista do Correio da Manhã, jornal de Belo Horizonte, e estava ali para cobrir o casamento a pedido do noivo. D. Esmeralda, professora primária, estava num canto sorrindo, e para todo mundo dizia que havia alfabetizado os noivos, dizia isto com muito orgulho. Algumas outras pessoas devem ser citadas: Eunando e Bival, repentistas nordestinos que há muito tempo viviam na cidade e animavam os bailes nos fins de semana. Odara, vendedor de artesanato na pracinha, que não havia sido convidado, ficou no fundo da igreja sobre o olhar de censura de todos. E Jorge, o ex-noivo da noiva que fez questão de estar presente, para o espanto do coronel, Jorge era bancário e cuidava de alguns problemas do coronel no banco, por isso ele não pode negar a sua presença apesar dos constrangimentos.
A cidade estava lá em peso, os velhos e as crianças, as beatas que nunca faltavam a um casamento suspirando na beira do altar. Enfim estava todos lá com suas roupas de festa a espera da noiva chegar. As beatas colocavam a fofocas em dia, as crianças brincavam correndo pra lá e pra cá, os pais esbravejavam e as colocavam no lugar, mas na primeira distração lá estavam elas de novo correndo e gritando dentro da igreja. Alguns rapazes aproveitavam a ocasião para fretar com as meninas novas que sorriam timidamente.
Alguém anunciou que a noiva havia chegado num carrão preto. O noivo e os padrinhos já estavam no altar em seus devidos lugares. Mas o padre Monsenhor Luís nada de aparecer. O padrinho do noivo saiu e avisou o pai da noiva que era preciso esperar. A noiva ficou nervosa. O que estava acontecendo? O noivo fugira? Orlando, o padrinho a acalmou. Não, o noivo estava lá. Mas o padre estava atrasado, havia ido dar a extrema unção para um moribundo na cidade vizinha, mas isto já havia sido há horas. O coroinha preocupado andava de um lado pro outro, ia à sacristia, tentava ligar no celular do padre, mas nada dele atender.
Coronel Raimundo saiu também para falar com José Maria e a filha. José Maria estava esbravejando. Padre filho da puta! Hoje era lá dia de extrema unção? Será que a outra cidadezinha não tinha padre? Coronel Raimundo procurou acalmá-lo. Rômula passava mal dentro do carro, devido ao calor extremo que fazia e pelo nervosismo do atraso do casamento, Dr. Adalberto saiu e lhe ministrou um calmante. Ao retornar ao interior da igreja fez o mesmo com D. Carmem, mãe da noiva, distribui também as pilulazinhas para as beatas que ameaçavam dar chiliques, como se elas tivessem alguma coisa a ver com isso.
Havia passado das dezoito horas, que era a hora exata do casamento. Começava escurecer, todos estavam nervosos. O noivo dizia para os padrinhos: Está vendo o que dá querer casar na igreja? Será que o casamento civil não era o suficiente? Mas seu futuro sogro fazia questão, então o que ele podia fazer? O coroinha questionado e oprimido pelos membros das famílias não sabia mais o que responder. Disse que já havia ligado para o Monsenhor mais de uma vez e que o telefone não respondia. Deveria ter acontecido alguma coisa de grave. Que Deus nos proteja! Um acidente de carro, a ponte que ligava as cidade poderia ter caído. Enfim uma série de conjunturas.
Todos falavam ao mesmo tempo, o coroinha quando todos se distraíram escapuliu pela sacristia. Ele que não ia ficar ali no meio da confusão. Ligou para o padre novamente, insistiu uma, duas, três, quatro vezes. Era inútil. Ficou quietinho na sacristia a espera que tudo se resolvesse.
O tempo passava. A noiva chorava. O noivo impaciente sentou no altar. Coronel José Maria pediu pra que Coronel Raimundo entrasse com a noiva. Ele não entendeu. Então não era o pai que devia conduzir a noiva? Deixa estar, disse o pai da noiva, vou resolver isto já! O pai do noivo ficou no ar, sem saber que diacho de solução seria aquela arquitetada pelo Coronel, mas concordou. Espere mais ou menos uns vinte minutos e se dirija a porta da igreja, quando tocar o órgão você pode entrar com a minha filha, foram às orientações do Coronel. Logo ele desapareceu atrás da igreja. Coronel Raimundo ficou achando que ele iria buscar outro padre, mas não tinha idéia onde.
Coronel Raimundo seguiu as orientações de quem seria agora o seu compadre, ainda um pouco confuso quanto à solução arquitetada por ele. Sabia que o seu filho não era lá muito religioso, mas se o pai da noiva fazia questão, quem era ele para questionar. Além de tudo tinha gastado uma fortuna para enfeitar a igreja, fora o vestido da noiva que ele também pagou. Não importava qual padre realizaria a cerimônia, se bem que preferisse mesmo Monsenhor Luís que havia batizado todos os seus filhos. Bom, mas se Coronel José Maria disse que iria resolver a questão, que fosse.
O padre entrou de cabeça abaixada e se virou de costas para os fiéis. Houve um silêncio abismal dentro da igreja, as beatas atônitas se entreolhavam, tentando adivinhar quem seria este bendito padre surgido do nada. O órgão começou a tocar a marcha nupcial. As portas da igreja se abriram, e todos se voltaram para a noiva. Ao se depararem com o sogro a acompanhando estranharam mais ainda. Agora era o pai da noiva que havia sumido? Deveras este casamento estava ficando muito bizarro.
A noiva acompanhada do seu sogro atravessou majestosamente a igreja, sorrindo como é de praxe. O sogro ainda não entendendo exatamente como havia surgido o padre. Aproximaram-se do altar, o sogro e pai do noivo entregou a noiva para o seu filho. E o padre que permanecia de costas virou-se.
Foi um assombro geral, no altar vestido de padre estava o pai da noiva. Odara no fundo da igreja caiu na gargalhada e pensou: Então sou eu que sou louco? A mãe da noiva envergonhada cobria o rosto enquanto repetia para si mesma: Santo Deus... Santo Deus... O noivo apenas sorriu de canto dos lábios: Que sogro maluco ele foi arrumar. Os padrinhos não sabiam o que fazer. Apenas se olhavam sem entender nada. A noiva bambeou as pernas e quase desmaia, mas se manteve firme. As beatas escandalizadas falavam uma com as outras, mas não ousavam protestar alto: Heresia... Heresia... – repetiam em voz baixa. O pai do noivo olhou nos olhos do seu agora compadre e exclamou em voz alta: Que prossiga a cerimônia!
Coronel José Maria fez as orações de praxe que conhecia de cor. Os noivos trocaram as alianças. Solenemente o coronel os declarou marido e mulher. Os noivos se beijaram e logo foram saindo acompanhados dos seus respectivos padrinhos, as crianças saíram em debandada e depois um por um foram saindo da igreja, alguns rindo e outros escandalizados. O Coronel devolveu o hábito na sacristia onde o coroinha estava escondido. No lado de fora as pessoas foram se dispersando. A festa seria na fazenda do Coronel Raimundo. Os convidados entraram em seus automóveis e se dirigiram para a fazenda.
No outro dia foi um comentário geral na cidade. O padre que havia passado mal estava hospitalizado na cidade vizinha. A festa havia sido um estrondo, com danças, comida em fartura. Os noivos viajaram para a sua lua de mel. Coronel José Maria visitou o padre no hospital e pediu desculpas em confissão. O padre ainda debilitado o perdoou, mas disse que o casamento não havia sido válido. O coronel pensou: Deixa pra lá, o que importava mesmo é que sua filha estava casada, e o que importava era mesmo no civil.
Por muito tempo as pessoas comentaram o casamento dos filhos dos coronéis. As beatas quando viam o Coronel José Maria na rua ou nas missas de domingo, faziam o nome do padre e cochichavam baixinho: Herege... Herege...
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