O ENGENHEIRO METAFÍSICO.
O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)
Texto
16:
Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. 15 de Fevereiro de 1983.
A vida é embriaguez!
É esta a impressão que eu tenho
Quando passo pelas ruas
Como um sonâmbulo...
Isto é a vida!
Um carnaval colorido e poeirento!
De hora em hora
Tenho esta sensação dolorosa,
Agradável, porém de ir aos empurrões
Na busca da alegria
Tal qual um bufão
Farsante e copioso...
Todo momento é um imenso carnaval
Em que me misturo a populaça, sem querer
E nem sequer eu penso nisso,
Pois se pensasse: maçar-me-ia viver...
Justo eu que sempre vivi na balbúrdia
Entrada pela cabeça adentro,
Gostaria de parar um só momento
Para poder ler meus pensamentos
Antes que a lucidez me esqueça...
Automóveis, veículos multicoloridos,
Cães vadios...
As ruas cheias de gente...
Tudo passando como uma fita de cinema...
Sinto-me ébrio, confuso,
Cambaleante sem corrimões
Nas minhas sensações na plena claridade...
É uma pândega esta minha vida!
Contudo eu estou
De acordo amoroso com isso tudo...
O que não encontro em mim,
Eu estudo
Na diferença entre eu e todo mundo.
Ah! Esta balbúrdia do carnaval!
Esta mistura de raças!
Este tremendo batuque!
Que tipos!
Agradáveis e antipáticos!
E eu no meio deles
Estrangeiro europeu de araque
Patético na minha bebedeira!
Por vezes tenho tédio do que sou,
Destas minhas supostas boas maneiras,
E gasto horas inteiras para me recompor
Das minhas bebedeiras...
Faço planos, talho toda uma vida,
Mas logo estou fora deles...
Olho para um tipo, como eu
Que aí vem,
Reparo como ele se veste bem
E me pergunto:
Que necessidades que ele tem?
Serão as mesmas do que eu?
É bem provável!
Afinal somos todos humanos
Mesmo quando perdemos
Todo senso de humanidade!
E tudo isso é para dizer apenas
Que eu não estou bem de vida,
E que muitas vezes desejo ir
Para um lugar sossegado
Onde haja prados, lagos,
Onde eu possa ouvir correr os rios
E cantar os pássaros
E de não ter mais que carregar o fardo
De ser como sou...
Ah! estou deveras farto
Do corpo e da alma
Que habita este corpo
Torto e desajeitado!
E a cada momento eu perco a calma
E não intento escrever
Nenhum outro poema...
Quero apenas berrar
Que me aborreço!
E que escrever é apenas
Um lamentável estratagema!
Seria mais descente
Ser outra pessoa,
Mas a gente só pensa isso
Por que a vê de fora
E só especulamos o que ela
Carrega dentro.
Qualquer coisa em mim
Parece agora sem sentido
E tudo o que acontece
Parece fora de hora.
Fico desejando
De eu mesmo partir
Arrumar as malas do meu ser
E ir embora...
Mas é carnaval!
E as ruas estão repletas de gente
Com suas sensações, intenções,
Idéias, pensamentos...
Cada qual com sua máscara
Mesmo que sem máscara...
Eu penso que essa gente é igual
E eu sou diverso...
Mesmo entre os poetas
Eu não seria aceito,
Não consigo nem sequer
Colocar tudo isso em versos...
Eu sou o inverso do meu universo
Que é o inverso do que eu sou,
E o que eu digo nenhum poeta assim diria...
Ah! Há muita gente aqui
E eu estou cansado,
Com cérebro e cansado,
Sozinho no tempo e no espaço
Por de trás da máscara...
Sou maior ou menor?
Com as minhas mãos,
Os meus pés, a minha boca
Falo e me locomovo no mundo...
Principalmente hoje
Em que todos são máscaras
Sobre outras máscaras,
Hoje que os gestos
São arrebatados e frenéticos!
E eu que não tenho compartimentos estanques,
Nem sensações, nem sentimentos,
nem emoções baratas,
Só a consciência
de que realmente
As vidas se misturam
E que o cérebro mata os sentimentos,
E que a unidade que supus em mim
Morre ao relento...
E quando tento pensar nisto tudo
Eu nem sei quem sou
Ou o que sinto realmente
Ou o que quero ou queria,
Sinto a psique fora da psicologia,
Sinto-me na noite
Em plena luz do dia,
E vivo fora da Terra
E das leis que vigoram neste mundo
Sem alento ou compensação pessoal
Que redima a minha dor.
Vejo-me como um ser amorfo
Anexo a um mundo que desconheço...
Então eu bebo para ficar alegre
Vendo os outros bebendo como eu
Para ficarem alegres ou tristes, sei lá!
O fato é que a vida dói-me
Em todos os meus poros,
Mas eu dou risada e paro e penso:
Para que escrever se é pura perda?
Mas mesmo assim escrevo o que sinto
E paro e penso: Bom... Que merda!
Pronto! Acabou-se!
E o que fica de tudo isso
Neste término do dia desolado
Mas que se julgou alegre por embriaguez
É apenas uma falsa e triste semelhança
Entre aquilo que sou e o que penso que sou,
Entre o que julgo ser e o que sou de fato,
A máscara colada no meu rosto
Que eu não reconheço
Mesmo depois de tirar a máscara.
E depois é dormir,
Despir-me do mundo
Como quem se despe
De um paletó roubado...
Tenho náusea do meu destino
Que me cansa até cansar-me...
Cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. 15 de Fevereiro de 1983.
A vida é embriaguez!
É esta a impressão que eu tenho
Quando passo pelas ruas
Como um sonâmbulo...
Isto é a vida!
Um carnaval colorido e poeirento!
De hora em hora
Tenho esta sensação dolorosa,
Agradável, porém de ir aos empurrões
Na busca da alegria
Tal qual um bufão
Farsante e copioso...
Todo momento é um imenso carnaval
Em que me misturo a populaça, sem querer
E nem sequer eu penso nisso,
Pois se pensasse: maçar-me-ia viver...
Justo eu que sempre vivi na balbúrdia
Entrada pela cabeça adentro,
Gostaria de parar um só momento
Para poder ler meus pensamentos
Antes que a lucidez me esqueça...
Automóveis, veículos multicoloridos,
Cães vadios...
As ruas cheias de gente...
Tudo passando como uma fita de cinema...
Sinto-me ébrio, confuso,
Cambaleante sem corrimões
Nas minhas sensações na plena claridade...
É uma pândega esta minha vida!
Contudo eu estou
De acordo amoroso com isso tudo...
O que não encontro em mim,
Eu estudo
Na diferença entre eu e todo mundo.
Ah! Esta balbúrdia do carnaval!
Esta mistura de raças!
Este tremendo batuque!
Que tipos!
Agradáveis e antipáticos!
E eu no meio deles
Estrangeiro europeu de araque
Patético na minha bebedeira!
Por vezes tenho tédio do que sou,
Destas minhas supostas boas maneiras,
E gasto horas inteiras para me recompor
Das minhas bebedeiras...
Faço planos, talho toda uma vida,
Mas logo estou fora deles...
Olho para um tipo, como eu
Que aí vem,
Reparo como ele se veste bem
E me pergunto:
Que necessidades que ele tem?
Serão as mesmas do que eu?
É bem provável!
Afinal somos todos humanos
Mesmo quando perdemos
Todo senso de humanidade!
E tudo isso é para dizer apenas
Que eu não estou bem de vida,
E que muitas vezes desejo ir
Para um lugar sossegado
Onde haja prados, lagos,
Onde eu possa ouvir correr os rios
E cantar os pássaros
E de não ter mais que carregar o fardo
De ser como sou...
Ah! estou deveras farto
Do corpo e da alma
Que habita este corpo
Torto e desajeitado!
E a cada momento eu perco a calma
E não intento escrever
Nenhum outro poema...
Quero apenas berrar
Que me aborreço!
E que escrever é apenas
Um lamentável estratagema!
Seria mais descente
Ser outra pessoa,
Mas a gente só pensa isso
Por que a vê de fora
E só especulamos o que ela
Carrega dentro.
Qualquer coisa em mim
Parece agora sem sentido
E tudo o que acontece
Parece fora de hora.
Fico desejando
De eu mesmo partir
Arrumar as malas do meu ser
E ir embora...
Mas é carnaval!
E as ruas estão repletas de gente
Com suas sensações, intenções,
Idéias, pensamentos...
Cada qual com sua máscara
Mesmo que sem máscara...
Eu penso que essa gente é igual
E eu sou diverso...
Mesmo entre os poetas
Eu não seria aceito,
Não consigo nem sequer
Colocar tudo isso em versos...
Eu sou o inverso do meu universo
Que é o inverso do que eu sou,
E o que eu digo nenhum poeta assim diria...
Ah! Há muita gente aqui
E eu estou cansado,
Com cérebro e cansado,
Sozinho no tempo e no espaço
Por de trás da máscara...
Sou maior ou menor?
Com as minhas mãos,
Os meus pés, a minha boca
Falo e me locomovo no mundo...
Principalmente hoje
Em que todos são máscaras
Sobre outras máscaras,
Hoje que os gestos
São arrebatados e frenéticos!
E eu que não tenho compartimentos estanques,
Nem sensações, nem sentimentos,
nem emoções baratas,
Só a consciência
de que realmente
As vidas se misturam
E que o cérebro mata os sentimentos,
E que a unidade que supus em mim
Morre ao relento...
E quando tento pensar nisto tudo
Eu nem sei quem sou
Ou o que sinto realmente
Ou o que quero ou queria,
Sinto a psique fora da psicologia,
Sinto-me na noite
Em plena luz do dia,
E vivo fora da Terra
E das leis que vigoram neste mundo
Sem alento ou compensação pessoal
Que redima a minha dor.
Vejo-me como um ser amorfo
Anexo a um mundo que desconheço...
Então eu bebo para ficar alegre
Vendo os outros bebendo como eu
Para ficarem alegres ou tristes, sei lá!
O fato é que a vida dói-me
Em todos os meus poros,
Mas eu dou risada e paro e penso:
Para que escrever se é pura perda?
Mas mesmo assim escrevo o que sinto
E paro e penso: Bom... Que merda!
Pronto! Acabou-se!
E o que fica de tudo isso
Neste término do dia desolado
Mas que se julgou alegre por embriaguez
É apenas uma falsa e triste semelhança
Entre aquilo que sou e o que penso que sou,
Entre o que julgo ser e o que sou de fato,
A máscara colada no meu rosto
Que eu não reconheço
Mesmo depois de tirar a máscara.
E depois é dormir,
Despir-me do mundo
Como quem se despe
De um paletó roubado...
Tenho náusea do meu destino
Que me cansa até cansar-me...

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