O ENGENHEIRO METAFÍSICO.



O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)


Texto 12:

Décimo segundo ano de exílio. Paris, França. 5 de Outubro de 1979.

Faz tanto tempo que sou incapaz
De escrever um poema extenso...
Muitos anos, por assim dizer,
Muitos anos...

Creio que perdi a virtude,
A capacidade rítmica
De dar forma às palavras,
De injetar alma
Ao corpo da idéia,
Que antes, em mim
Era espontânea e livre...

Agora sou consciente demais,
Racional demais,
perdi aquela intuição
Que me direcionava
Para certa direção precisa,
Que não era necessário
Esforço em demasia,
Mas apenas me deixar livre
Como uma pipa solta no ar...
Agora estou com a alma
Atada ao meu corpo
Que é pesado demais,
Denso demais...

Outrora
Escrevia Odes Triunfais,
Épicos, Sagas de Heróis
Cruzando os mares,
Poemas que eram
Verdadeiros tratados filosóficos.

Mas agora
O que me resta?
Um sol que se põe,
Um dia vivido sem nenhum esforço,
Uma brisa apenas
Que me dá a consciência do ar
Que eu mal respiro,
Nenhum esboço significativo,
Nenhuma palavra chave,
Nenhum enigma a ser desvendado...
Nada! Nada!

E os meus planos?
Os meus planos!
Ora! Os meus planos!
De uma obra imortal,
De uma manchete no jornal,
Do prêmio Nobel!

Tudo delírio...
Um delírio banal!

Agora
Nenhuma estrofe,
Nem sequer um soneto singelo...
Agora fico só em casa
Sem camisa e de chinelos
Pensando em todas as religiões do mundo
Que não me entretém
Com seus sermões...

Mas então
O que significa tudo isso?
Se não tenho compromissos
Nem com a literatura
E nem mesmo comigo.
Para quê então escrever
Se ninguém mesmo vai ler,
Nem sequer os meus amigos?
Mesmo porque não tenho amigos,
Só mesmo estes livros
Que insisto em reler...

Ah! Mas porque eu estou pensando tanto?
Malhas sobre malhas
Formando um todo sem todo,
Pano que não sei
Se é para um vestido
Ou para nada...
Alma que eu não sei
Se é para sentir
Ou para viver?

Para que tanta impaciência,
Curiosidade, atenção?
Se sou um vulto inexistente
Sem passado e sem presente,
Objeto inútil e curioso
Que se passa de mão em mão?

Eu aqui... Eu aqui...
Aqui... Definitivamente aqui...
Afundado no sofá
Cheio de vagas esperanças
Que não valem nada,
Ao relento de todos os sonhos...
Eu que tenho sido
Muitas vezes cômico,
Que tenho sido inútil, incongruente e fútil...

Eu aqui...
Irremediavelmente aqui...
E o que é esta casa?
O que é esta noite?
O que é esta chuva?

Estou cansado...
Apenas isso... Estou cansado!
Estou cansado e não consigo escrever.
Estou cansado do sossego da noite
E de meu desassossego de noite...
Do silêncio que se acentua
Porque zumbe e murmura
Como coisa estranha no escuro...
Estou cansado
Como um cão que vai morrer
E por isso se recolhe num canto
Com os olhos marejados...

Ó! Opressão de tudo isso!
Esqueci-me de esquecer-me,
E estou aqui, vaga náusea,
Doença incerta de me sentir...
Sempre esta inquietação,
Sempre!
Este mal estar, sempre!
Este desejo de escrever
E não escrever...
Que pena...
Serão todos os dias assim?
Será que a  noite é eterna dentro de mim
E que é interminável a madrugada?









Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM.

O EX-MÁGICO DA TABERNA MINHOTA

DESENHO.