O ENGENHEIRO METAFÍSICO.



O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)


Texto 10:

Décimo ano de exílio. Casa Blanca, Marrocos. 3 de Agosto de 1977.

Todas as coisas que existem
São impressionantes...
Há de serem, pelo menos
Enquanto houver mundo
E houver sangue e rosas...
Há também de haver
Certos instantes
Onde as coisas passam
Sem serem coisas...

Meu coração segue
Aos solavancos, como antes,
Em intervalos de consciência e de sono...
Sobe assim em rompantes
Como um foguete
Que é um símbolo que sobe
E depois de ruídos no alto caí
Saltando faíscas brilhantes...

Para trás
Ficaram muitas pessoas
A quem amei,
Ficaram como anônimos
Perdidos na memória...
Anônimos por que
Já não lembro os seus nomes,
Porque o meu coração
É muito antigo,
E amo hoje o que amo
Só porque o persigo...

Dêem-me vinho, por favor,
Ou dêem-me sangue.
Quero esquecer
Tudo o que fui
E o que de meu é meu.
Quero esquecer
E seguir adiante.
Quero sem me mexer
Ir indo
Não sei para onde...

Quero escrever sonetos
A beira do abismo...
Ó grande Mar Atlântico!
Quero cuspir sobre suas ondas
Os meus sonetos anônimos,
Pois na vida somos todos anônimos.

Só o mar e o céu
Nos libertam da gravidade da Terra.
Pudesse eu represar os sentimentos
Que espreitam minha solidão
Pálida e imperfeita,
Recorte morto contra um céu vivo
E repleto de estrelas... 


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