O ENGENHEIRO METAFÍSICO.
O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)
Texto 8:
Oitavo ano de exílio. Dublin, Irlanda. 25 de Abril de 1975.
Querer bem e querer mal
É afinal querer coisa alguma.
Estou desajeitado
E me deito mal,
Para esquerda e para a direita
Numa alternância de insônia
Entre a vigília e o sono...
Creio que tenho consciência
De viver metafisicamente mal,
E o pior de tudo
É que me dói
Terrivelmente a cabeça...
E isso é muito mais grave
Do que o previsível
Sentido íntimo do universo...
Olho pela janela
A curva da estrada
Numa distância próxima
E a torre da igreja...
A estrada eu bem sei
Deve levar para algum lugar distante,
Mas não consigo
Prever a espiritualidade
Desta torre de igreja
Que outrora era
A representação da fé
de todas as eras
E a eficaz caridade.
Mas que agora é
Apenas uma velha torre de igreja
Despontando na curva da estrada.
E diante desta terrível
Dor de cabeça
Eu penso cá comigo
Pode-se ser feliz na Austrália
Desde que lá não se vá...
Sim... Sou eu...
Eu mesmo...
Aqui meditando
De um lado pro outro
Com meu corpo,
Esta espécie
De acessório sobressalente
De eu próprio.
Ser eu aqui comigo...
Ser eu...
O quando fui,
O quando não fui,
O que sou e não sou,
Tudo isso sou eu.
O que fiz e o que deixei de fazer,
O que quis e não quis,
Tudo isso me forma...
O quanto amei e fui amado,
O quanto não amei e não fui amado,
O meu presente, o meu futuro, o meu passado...
É a mesma saudade em mim,
É a mesma impressão inconseqüente
De um sonho
Formado sobre realidades mistas,
De ter me deixado ao acaso
Sentado num banco de ônibus.
E ao mesmo tempo
A impressão de um sonho longínquo
Que se quer lembrar na penumbra
A que se acorda... Sim...
A mesma impressão dolorosa
De um acordar sem sonhos
Para um dia de muitos credores,
E de saber que se falhou em tudo
Como quem tropeça
Num capacho roubado por ciganos.
Eu digo basta! Basta!
Mais vale ser criança
Do que querer compreender o mundo...
Basta! Sim... Basta!
Sou eu mesmo
Virado e revirado
O autor desta carta sem credenciais,
Este palhaço sem riso
Ou nariz vermelho ou maquiagem,
Este bobo da corte
Que faz tinir campainhas na cabeça
Como pequenos chocalhos
De uma servidão sem fim...
Sou eu mesmo
Esta sincopada charada
Que ninguém decifra
Nos serões de província.
Sou eu mesmo... Que remédio...
Sou eu mesmo...

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