O ENGENHEIRO METAFÍSICO.

O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)



Texto 5:

Quinto ano de exílio. Lisboa, Portugal. 15 de Abril de 1972.

Porque escrevo?
No que a arte consiste?
Fazer os outros sentirem
O que nós sentimos?

Mas que espécie de libertação é esta?

Tento traduzir os meus sentimentos
Numa linguagem incompreensível...
A verdadeira substância do que sinto
É incomunicável...
E quanto mais profundamente sinto
Mais incomunicável
É o que tento transmitir...

Tudo o que é abstrato
É difícil de compreender...

Não evoco a felicidade,
Não posso...
Não posso traduzir em frases
Esta emoção de viver.

Em mim as afeições, por vezes,
Passam a superfície,
Mas sinceramente
Tenho sido ator sempre.
Fingir é amar.

A arte mente porque é social,
E ela existe por razões inumanas
E particulares...

Cheguei hoje a uma sensação
Absurda e justa
De que não sou ninguém...
Nada do que supus que fosse.

Sou os arredores
De uma vila que não há...
Rastros de músicas, sílabas e vozes...

Meu pai morreu muito cedo
Mal cheguei  a conhecê-lo
A indelicadeza suposta dos meus atos
Que era afeição verdadeira se perdeu...

Ah! Vasta vertigem do que sinto...
Oceano infinito em torno de mim...
Imagens do que vi e vivi...
Geometria do abismo...

Evoco a felicidade
De não ter direitos e nem deveres,
De ser livre e não saber pensar.
A mentira é simplesmente
A linguagem ideal da alma
E a poesia começa a mentir
Na sua própria estrutura.





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