O ENGENHEIRO METAFÍSICO.
O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)
Texto 17:
Paraty, Rio de Janeiro, Brasil. 31 de Dezembro de 1984.
Muitos dizem que sou vil
E que sou reles
Como toda gente,
Pois quem não o é?
Dizem, ainda
Que eu não tenho ideal,
Mas quem de fato o tem?
Quem diz que o tem
É como eu, mente.
Quem diz que o busca
É porque nunca o teve.
Eu sou assim
Escrevo com outras palavras
Poemas que já foram escritos,
Procuro, no entanto
Não me desviar daquilo que já foi dito,
Muitos me acusariam de plágio,
Mas isso é apenas um estágio
Daquilo que medito...
Se disserem que falo a verdade,
Eu insisto, minto...
A mentira é a minha matéria prima.
É com imaginação
Que eu cultuo tanto o bem
Quanto o mal,
Passo pela vida como um fantasma
Em uma casa mal assombrada,
Bêbado cambaleante por intervalos...
E como todo mundo eu não creio no que creio,
Ou melhor, eu não creio em nada.
Mas enquanto não morro
Escrevo, leio e falo.
E para que justificar-me? Modificar-me?
Sou como todo mundo é
Igual a todo mundo.
Sou como o Manoel, o Gabriel, o Zé,
Falo com a boca,
Ando com os pés.
Então acaba com isso, ó coração!
Para que especulações, ideais, filosofias, fé?
A vida é exatamente como é!
Deuses? Forças ocultas?
Ciências aplicadas?
Tanta explicação que não explica nada!
Estou aqui à beira mar, no cais,
Sentado numa pedra,
E não compreendo nada do que é o mundo,
E por que haveria eu de compreendê-lo?
Mas por que também não haveria?
Água de córrego correndo suja e fria,
Ondas do mar no seu fluxo de maresia,
É assim que eu sou,
É assim que eu passo pela vida,
Como o sol que se põe
No final de cada dia...
O universo
É este imenso emaranhado de astros, planetas,
Errantes cometas...
É este mosaico de estrelas já mortas no firmamento,
E é inútil imaginá-lo,
É como tentar contar com os dedos
Todos os nossos pensamentos...
Então eu só me levanto da pedra
Carregando comigo
A minha indiferença
E sigo o meu caminho
Como a sombra de um jumento
E depois de ir-me embora
Sinto uma espécie de desprezo,
Sigo pelas ruas à beira mar
Com um cigarro aceso...
E não carrego comigo nenhuma conclusão
E nenhum tipo de acerto,
Só carrego, talvez, a ilusão
De que tenho tudo que mereço
Mesmo neste mundo de desilusões,
Sem saúde e sem dinheiro.
E se eu tivesse conclusões práticas?
Estas seriam inúteis.
Conclusões teóricas?
Apenas confusões.
Que teorias há para aquilo que se sente?
E que sentimentos há
Que abarque tantas teorias inúteis?
Sobre o universo, a vida, o mundo?
Mas sou como todo mundo,
Alma incerta,
Nunca forte ou calma,
Que caminha distraída
Através de um sonho histérico e oculto,
Ruminando sensações metafísicas,
Nunca certas, sempre relativas...
Então fecho o caderno de apontamentos,
E tento esquecer todos os poemas
Que tentei escrever
E continuo seguindo
Sem cálculos e nem surpresas
Pelas ruas à beira mar
Com o cigarro aceso,
Com uma única conclusão afinal
Sem nenhum compromisso,
De que sigo pela vida
Como corre um rio
Livre
Até que ela finde
Para desaguar no mar
Que é o universo...
Dedico este trabalho aos meus amigos e irmãos (assim os posso chamar) que muito me incentivaram a escrever estes modestos versos. São eles: Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares.
FIM DA JORNADA.
Paraty, Rio de Janeiro, Brasil. 31 de Dezembro de 1984.
Muitos dizem que sou vil
E que sou reles
Como toda gente,
Pois quem não o é?
Dizem, ainda
Que eu não tenho ideal,
Mas quem de fato o tem?
Quem diz que o tem
É como eu, mente.
Quem diz que o busca
É porque nunca o teve.
Eu sou assim
Escrevo com outras palavras
Poemas que já foram escritos,
Procuro, no entanto
Não me desviar daquilo que já foi dito,
Muitos me acusariam de plágio,
Mas isso é apenas um estágio
Daquilo que medito...
Se disserem que falo a verdade,
Eu insisto, minto...
A mentira é a minha matéria prima.
É com imaginação
Que eu cultuo tanto o bem
Quanto o mal,
Passo pela vida como um fantasma
Em uma casa mal assombrada,
Bêbado cambaleante por intervalos...
E como todo mundo eu não creio no que creio,
Ou melhor, eu não creio em nada.
Mas enquanto não morro
Escrevo, leio e falo.
E para que justificar-me? Modificar-me?
Sou como todo mundo é
Igual a todo mundo.
Sou como o Manoel, o Gabriel, o Zé,
Falo com a boca,
Ando com os pés.
Então acaba com isso, ó coração!
Para que especulações, ideais, filosofias, fé?
A vida é exatamente como é!
Deuses? Forças ocultas?
Ciências aplicadas?
Tanta explicação que não explica nada!
Estou aqui à beira mar, no cais,
Sentado numa pedra,
E não compreendo nada do que é o mundo,
E por que haveria eu de compreendê-lo?
Mas por que também não haveria?
Água de córrego correndo suja e fria,
Ondas do mar no seu fluxo de maresia,
É assim que eu sou,
É assim que eu passo pela vida,
Como o sol que se põe
No final de cada dia...
O universo
É este imenso emaranhado de astros, planetas,
Errantes cometas...
É este mosaico de estrelas já mortas no firmamento,
E é inútil imaginá-lo,
É como tentar contar com os dedos
Todos os nossos pensamentos...
Então eu só me levanto da pedra
Carregando comigo
A minha indiferença
E sigo o meu caminho
Como a sombra de um jumento
E depois de ir-me embora
Sinto uma espécie de desprezo,
Sigo pelas ruas à beira mar
Com um cigarro aceso...
E não carrego comigo nenhuma conclusão
E nenhum tipo de acerto,
Só carrego, talvez, a ilusão
De que tenho tudo que mereço
Mesmo neste mundo de desilusões,
Sem saúde e sem dinheiro.
E se eu tivesse conclusões práticas?
Estas seriam inúteis.
Conclusões teóricas?
Apenas confusões.
Que teorias há para aquilo que se sente?
E que sentimentos há
Que abarque tantas teorias inúteis?
Sobre o universo, a vida, o mundo?
Mas sou como todo mundo,
Alma incerta,
Nunca forte ou calma,
Que caminha distraída
Através de um sonho histérico e oculto,
Ruminando sensações metafísicas,
Nunca certas, sempre relativas...
Então fecho o caderno de apontamentos,
E tento esquecer todos os poemas
Que tentei escrever
E continuo seguindo
Sem cálculos e nem surpresas
Pelas ruas à beira mar
Com o cigarro aceso,
Com uma única conclusão afinal
Sem nenhum compromisso,
De que sigo pela vida
Como corre um rio
Livre
Até que ela finde
Para desaguar no mar
Que é o universo...
Dedico este trabalho aos meus amigos e irmãos (assim os posso chamar) que muito me incentivaram a escrever estes modestos versos. São eles: Alberto Caieiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares.
FIM DA JORNADA.

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