O ENGENHEIRO METAFÍSICO.
O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)
Texto 11:
Décimo primeiro ano de exílio. Nice, França. 21 de Junho de 1978.
Saí do ônibus e acenei adeus
Ao companheiro de viagem...
Ficamos por horas juntos
Tendo uma conversa agradável,
Uma fraternidade
Que só há em longas viagens...
Fiquei um pouco triste
E tive pena de sair do ônibus,
Meus olhos ficaram sem querer
Marejados de lágrimas...
Toda despedida é uma morte.
Sim... Toda despedida.
Nós neste comboio que chamamos vida
Somos todos casuais
Uns para os outros,
É com pesar que todos nós
Por fim desembarcamos.
Toda a humanidade me comove
Porque sou homem,
Porque não tenho idéias
Ou doutrinas simplesmente
Mas uma vasta fraternidade
Com a verdadeira humanidade.
A empregada que foi despedida
Saiu a chorar de saudade
Da casa da patroa
Onde não a tratavam
Muito bem...
E tudo isso
No meu coração
É a morte e a tristeza do mundo,
Tudo isso é vivo porque morre,
E o meu coração é maior
Que o universo inteiro,
E não tenho problemas,
tenho apenas mistérios,
E as minha lágrimas
São as lágrimas
De todos que sofrem
No meu coração,
Porque o meu coração é tudo.
Bandeira içada
Onde não há ninguém,
Barco atado a margem
Esperando o dono,
Cadáver amarelado no necrotério...
Meu coração:
Uma mulher abandonada
Chorando o filho morto,
Um estalajadeiro
Aguardando à porta
Com um sorriso maligno,
Todo o universo concluso a podridão...
Meu coração:
Algema partida, ladrão em fuga...
Tudo isso é o meu coração,
Música banal
Que alguém toca no piano
No outro andar,
Mas em todo caso, música.
Como o choro imanente
De toda criatura humana
Que tortura a calma
No desejo de uma calma melhor
meu coração
É como a música deste piano
Que alguém toca sem saber tocar...
Ah! Quantas infâncias não tive,
Quantas mágoas
Carregadas ao longo da estrada,
Quantos sonhos perdidos e mais mágoas...
Mas foram afinal das contas
Boas mágoas.
Sempre como uma música pobre
Tocada por quem não sabe tocar,
Mas apesar de tudo música...
Uma espécie de melodia
Precária e racional...
Racional? Deus meu!
Como se algo
Pudesse ser racional!

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