O ENGENHEIRO METAFÍSICO.



O ENGENHEIRO METAFÍSICO (ou PARA LER E ESCREVER O MUNDO)


Texto 9:


Nono ano de exílio. Costa Brava. Catalunha. 20 de junho de 1976.

Não fales alto...
Ou pelo menos
Não fales tão alto...
Agora é tarde... Já é de noite?
Não esbravejes tanto...
Digo para mim e comigo
De frente ao espelho...
Esta aqui é a vida
E eu estou cansado...
E a noite avança...

Não fales tão alto!
Já é muito tarde...
Já é quase dia?
E depois no final da tarde,
Na saída do trabalho
Vou pegar o ônibus,
Vou voltar para casa vazia
Onde todos estão mortos,
Menos eu...
Eu estou vivo?

A vidraça da casa está quebrada...
Foi, talvez o menino
Que joga bola na rua
E que anda descalço
E que fala palavrões
E que solta pipas...
Tenho inveja deste menino
Que nunca fui
E que nunca serei...
Agora é tarde?

Eu afrouxo a gravata
E ascendo um cigarro,
Ascendo a luz da sacada
E olho por entre a pálpebras
Muitos lugares
Ainda repleto de estrelas...

Já é quase dia...
Estou cansado
E não tenho sono...

Perdi todas as esperanças
De dormir a noite...
e através do meu cansaço
Sinto toda a humanidade
Que acorda cedo...
São de carne e osso
Toda esta gente?
Ou são como moscas
Com as asas presas
Numa teia de aranha
Sobre o abismo?

Bem... Mas isso
É só uma razão qualquer
Que me vem à mente...
Porque agora é tarde,
É de madrugada...
E se eu tomasse
Um café bem quente?
Um pouco de água ardente?
E se eu escovasse os dentes?

Sim... Esta é só uma razão qualquer
Que me vem a mente...
E eu não creio em nada,
Ou talvez eu creia,
Eu não sei direito,
Mas repito sempre
Uma pergunta tola:
O amor deve ser constante?
Sim! Deve ser!
Que embrulhada
A gente arranja!
Mas isto aqui é a vida,
tenham paciência!
Amanhã eu trago o dinheiro!

Sim! Está bem
Ó grande sol
Tu não sabes nada disso!
E é inútil prolongar esta conversa
Diante de todo este silêncio...
Melhor é afundar-me
Neste sofá grande
E fumar o meu cigarro
Enquanto o tempo passa...

Sim... É inútil!
Até a vida no campo
É igualmente inútil...
E há coisas
Que são tão difíceis de dizer...
e este silêncio todo...
A noite que se prolongou
Até a madrugada,
E ainda faltam quatro horas
Para raiar o dia
E o desespero desta insônia...
e de repente
O humano quadrado
de uma janela iluminada
Do outro lado da rua
De frente a sacada,
Fraternidade incógnita
E involuntária na noite.

Perante a humanidade alheia
Estamos ambos despertos...
Todos dormem, Mas nós
Temos luz!
Mas quem será?
Doente? Falsificador de dinheiro?
Ou simplesmente insone como eu?
Ora! Não importa!
A noite é eterna e infinita,
E agora neste lugar
Há apenas a humanidade
Das nossas duas janelas...
O coração pulsante
Das nossas duas luzes acesas...
Agora somos todo o mundo,
Toda a vida sentindo
A úmida noite...
E eu me agarro ao parapeito da sacada,
Debruço-me para o infinito universo...
Os galos não estão gritando ainda
E o silêncio é definitivo...

O que fazes aí camarada
Da janela com luz?
Sonho? Falta de sono?
Caso de morte ou vida?
Sei lá! Sei lá!
A luz se apaga...

E fica apenas eu
Em pé na sacada...
O dia lentamente vem chegando,
Já desponta um transeunte
Indo pro trabalho,
Ascendo um cigarro e penso
Seria tão bom dormir agora...

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