O REENCONTRO:
O REENCONTRO:
Há trinta anos eles não se viam.
Quando ele entrou pela porta da sala de leitura da Biblioteca Mário de Andrade ele a avistou ao fundo sentada na última mesa com um livro de Guimarães Rosa. Seus olhares se cruzaram como da primeira vez em que se conheceram. Houve como que uma suspensão no tempo acentuada pelo silêncio absoluto do ambiente.
Ambos sorriram. Os olhos brilharam. Ela agora tinha os cabelos curtos. Seu rosto ainda era o da menina de dezoito anos que ele conhecera na Casa de Cultura Maiakovski há exatamente 30 anos atrás. Por uma destas coincidências da vida que ninguém explica o dia era onze de julho, exatamente o mesmo dia em que se viram pela primeira vez na oficina de poesia ministrada pelo seu amigo Gobira.
Quando ele entrou na sala da casa de cultura ela estava sentada num canto da sala, os outros alunos também estavam sentados no chão numa roda. Ele chegou com uma pintura enrolada debaixo do braço e imediatamente seus olhares se cruzaram. Seu amigo Gobira o apresentou como poeta e artista plástico. Estava ali para dar uma palestra, não que ele se achasse importante, mas seu amigo o convidara e ele aceitou. Assim como seu amigo ele era um artista iniciante e faziam parte do mesmo grupo de poetas. Ela também escrevia poesias e estava lá, segundo ela mesma disse, para alargar os horizontes.
Ele retirou seu poema do bolso, estava nervoso e tímido. Leu em voz alta. Suas mãos tremiam diante da presença dela, ela sorriu. Depois ele desenrolou a pintura e falou um pouco sobre sua trajetória até aquele momento.
O momento que eles viviam era um momento delicado, jovens estavam sendo presos e torturados, artistas e intelectuais desapareciam da noite pro dia, a repressão policial era forte nas ruas. Seu poema versava sobre isso, era um clamor a resistência, todos ficaram admirados, mas também um pouco apreensivos. Este poema não poderia ser lido em qualquer lugar. A própria casa de cultura que era uma sede de estudantes secundaristas corria o risco de ser fechada, devido o nome que carregava do poeta russo.
Depois os dois ficaram conversando e marcaram um encontro no Museu de Arte Moderna que ficava no parque do Ibirapuera para assistirem um espetáculo baseado na obra do pintor surrealista Magritte. Ele dormiu durante o espetáculo. Ela o cutucou com o braço. Deram muitas risadas sobre isso. Depois do espetáculo foram para casa de um amigo dele no Sumaré.
Seu amigo Henrique que estava viajando pela Europa deixara as chaves caso ele precisasse. A casa que era confortável ficava abaixo do nível da rua que era uma descida, era necessário descer uma escada. A casa tinha cômodos amplos e um quintal arborizado. Fizeram amor lá pela primeira vez. E se havia ainda alguma dúvida, constataram ambos que estavam completamente apaixonados.
Durante cerca de um mês freqüentaram a casa do Henrique, fazendo amor todos os dias Também cozinhavam, bebiam cerveja e davam risadas. Juntos visitaram museus e teatros, passeavam freqüentemente no parque de mãos dadas. Amavam os animais, ele possuía cães e ela gatos, falavam sempre sobre os seus bichos também interagiam com os animais da rua. Foram momentos mágicos estes dias que conviveram juntos.
Há trinta anos eles não se viam.
Quando ele entrou pela porta da sala de leitura da Biblioteca Mário de Andrade ele a avistou ao fundo sentada na última mesa com um livro de Guimarães Rosa. Seus olhares se cruzaram como da primeira vez em que se conheceram. Houve como que uma suspensão no tempo acentuada pelo silêncio absoluto do ambiente.
Ambos sorriram. Os olhos brilharam. Ela agora tinha os cabelos curtos. Seu rosto ainda era o da menina de dezoito anos que ele conhecera na Casa de Cultura Maiakovski há exatamente 30 anos atrás. Por uma destas coincidências da vida que ninguém explica o dia era onze de julho, exatamente o mesmo dia em que se viram pela primeira vez na oficina de poesia ministrada pelo seu amigo Gobira.
Quando ele entrou na sala da casa de cultura ela estava sentada num canto da sala, os outros alunos também estavam sentados no chão numa roda. Ele chegou com uma pintura enrolada debaixo do braço e imediatamente seus olhares se cruzaram. Seu amigo Gobira o apresentou como poeta e artista plástico. Estava ali para dar uma palestra, não que ele se achasse importante, mas seu amigo o convidara e ele aceitou. Assim como seu amigo ele era um artista iniciante e faziam parte do mesmo grupo de poetas. Ela também escrevia poesias e estava lá, segundo ela mesma disse, para alargar os horizontes.
Ele retirou seu poema do bolso, estava nervoso e tímido. Leu em voz alta. Suas mãos tremiam diante da presença dela, ela sorriu. Depois ele desenrolou a pintura e falou um pouco sobre sua trajetória até aquele momento.
O momento que eles viviam era um momento delicado, jovens estavam sendo presos e torturados, artistas e intelectuais desapareciam da noite pro dia, a repressão policial era forte nas ruas. Seu poema versava sobre isso, era um clamor a resistência, todos ficaram admirados, mas também um pouco apreensivos. Este poema não poderia ser lido em qualquer lugar. A própria casa de cultura que era uma sede de estudantes secundaristas corria o risco de ser fechada, devido o nome que carregava do poeta russo.
Depois os dois ficaram conversando e marcaram um encontro no Museu de Arte Moderna que ficava no parque do Ibirapuera para assistirem um espetáculo baseado na obra do pintor surrealista Magritte. Ele dormiu durante o espetáculo. Ela o cutucou com o braço. Deram muitas risadas sobre isso. Depois do espetáculo foram para casa de um amigo dele no Sumaré.
Seu amigo Henrique que estava viajando pela Europa deixara as chaves caso ele precisasse. A casa que era confortável ficava abaixo do nível da rua que era uma descida, era necessário descer uma escada. A casa tinha cômodos amplos e um quintal arborizado. Fizeram amor lá pela primeira vez. E se havia ainda alguma dúvida, constataram ambos que estavam completamente apaixonados.
Durante cerca de um mês freqüentaram a casa do Henrique, fazendo amor todos os dias Também cozinhavam, bebiam cerveja e davam risadas. Juntos visitaram museus e teatros, passeavam freqüentemente no parque de mãos dadas. Amavam os animais, ele possuía cães e ela gatos, falavam sempre sobre os seus bichos também interagiam com os animais da rua. Foram momentos mágicos estes dias que conviveram juntos.
II
Foi exatamente em 20 de agosto que ele desapareceu. Ela o procurou na casa do Sumaré, e depois na sua residência no Jabaquara. Os cães estavam no quintal, mas ninguém sabia nada certo sobre ele. Um vizinho falou que o havia visto entrando num carro preto cerca de uma semana atrás.
Ela perguntou aos amigos dele, pelo menos os que ela conseguiu encontrar. O momento no país era de terror absoluto. As pessoas se escondiam. Muitas haviam partido para outro país, alguns se ajuntaram em grupos de resistência e viviam na clandestinidade. Ela estava desolada, sem saber o que fazer, procurou ele em departamentos da polícia política, se arriscando mesmo a ser presa, mas não houve notícias sobre ele. Um ano depois ela entrou na universidade para cursar antropologia.
III
Era final da tarde quando ele entrou na Biblioteca e a avistou de longe. Ela tomou um susto quando o viu com os mesmos cabelos longos de outrora com cachos caindo sobre o ombro, agora ligeiramente grisalhos. Mesmo espantada com a aparição súbita dele ela sorriu e seus olhos brilharam. Ficaram ambos paralisados sem conseguirem se mover por alguns instantes. Então ele se dirigiu com passos lentos até a mesa onde ela estava.
O que havia acontecido durante todos estes anos?
Ela se formou na USP e depois fez pós graduação em Paris, viajou pela África e por países do Oriente. Se casou com um Americano, mas seu casamento não durou dois anos. Não teve filhos. De volta ao Brasil comprou um apartamento no Ipiranga com vista para parque da independência, começou a lecionar história na faculdade Santa Marcelina. Tinha agora três gatos.
Ele se sentou ao seu lado, mas não emitiu uma palavra. Tinha uma cicatriz no lado direito do rosto, mas isto não o desfigurava, ainda era belo aos seus olhos. Os olhos castanhos esverdeados dele ainda possuía o mesmo brilho e intensidade de acordo incidência da luz. Neste momento eles estavam completamente verdes. Segurou delicadamente as mãos dela e ficaram assim durante um bom tempo.
IV
Ele fora preso e torturado. Ficara no departamento do DOPS no centro da cidade, em uma cela com outros prisioneiros políticos. Durante dois meses fora torturado quase todos os dias. Alguns companheiros de cela morreram durante este período. Já não tinha esperanças de sair vivo dali. Não fosse um amigo seu chamado Paul Marques que era advogado influente teria sido assassinado ali mesmo como os outros. Mas Paul Marques cujo o pai era coronel, conseguiu convencer que ele não era ativista político, mas apenas um artista.
Questionaram sobre um poema que ele havia escrito criticando o sistema, um poema altamente subversivo. Pessoas como ele, disseram, não podiam ficar soltas na ruas incentivando o comunismo. Mas Paul Marques apelou ao seu pai e assim conseguiram que ele fosse exilado as pressas. Não conseguiu entrar em contato com nenhum amigo, e como era órfão não tinha também familiares.
Saíra as pressas do país, junto com outros intelectuais e artistas no mesmo ônibus. Ficara inicialmente na Argentina. Escreveu para os amigos, mas suas cartas nunca chegavam aos destinatários, mesmo ele usando um pseudônimo.
Viajou pela Venezuela, Peru e depois foi para o México. Depois de anos desistiu de entrar em contato, começou a escrever um Romance, mas não chegou a terminar. Escrevia poemas com freqüência.
Sim, havia tido alguns casos, mas nada duradouro. Não parava muito tempo nos lugares, viajava de uma cidade pra outra, vivendo de pequenos bicos, o suficiente pra pagar um quarto e se alimentar minimamente.
Quando veio a Anistia voltou. Arrumou um emprego na redação de um pequeno jornal no interior de Minas Gerais, começou também a lecionar literatura em uma escola particular. Começou um romance com a filha de um fazendeiro e teve intenção de casar-se, mas depois desistiu. Não havia da parte dele amor suficiente. Então resolveu voltar para São Paulo.
V
Chegou em São Paulo no dia dez de Julho. Ficou sabendo de um vizinho antigo no Jabaquara que os seus cães haviam sido recolhidos pelo departamento de zoonose da prefeitura na época. A casa que antes de ser preso ele alugava se transformara num cortiço. Seu amigo Henrique vendera a casa no Sumaré e agora vivia na França.
Visitou o museu no parque do Ibirapuera, depois alugou um quarto numa pensão na Bela Vista.
No dia seguinte acordou cedo, tomou uma média e comeu um pãozinho com manteiga na padaria. Depois seguiu a pé até a biblioteca.
Trinta anos se passaram.
Agora estavam ele e ela lado a lado.
Não sabiam o que falar um para o outro.
A biblioteca se transformou numa espécie de Limbo.
Estavam os dois frente a frente de mãos dadas, apenas olhavam em silêncio um para o outro e sorriam.
Ficaram assim por um bom tempo.
Depois se beijaram na boca.
FIM
São Paulo. 12/02/2017.

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