PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM.



PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM:

V


1. CHUVA.

CHOVE
Chuva-pedra-vidro
Se es-fa-ce-la
No assoalho
                     Negro-asfalto
Do alto negro-céu
Cai cristais de água ácida
                                          Água-sólida

No solo
Esfacela-da
                    Quebra
                                 Se espalha
Pula
       Cristaliza a lágrima

Na escuridão do céu
                                    Do chão

Noite
Não-Tão-Tarde
Tarde apenas
Anjos no meio da multidão
                                             Solidão
A cidade chove (Chove não)
A chuva chove
                       Mas são pedras que caem
No chão
Granito pedra-agulhas
Á prestação
                     Vai parar
E recomeça
                     Vai estiar
Estia
Não
No meio das nuvens um avião
                                                     Estrondo
                                                      Barulho
                                                      Turbilhão
A água cristaliza cristalina
Peguei um pingo
Na minha mão...

2. UM SOLO DE SAX.

Que sala imensa é essa
A onde eu me perco na penumbra?
São tantas sombras
Que entram e se projetam nas paredes,
Entre elas
A de uma mulher tocando sax...

Lá fora chove...
Aqui dentro chove...
Dentro de mim chove...
Chove... Neva...
A água escorre,
Alguma coisa morre
Na enxurrada que tudo arrasta,
Carregando a lama que tudo enterra...

Lá fora as pessoas passam,
Umas a pé, outras de carro,
Na minha garganta
Arranha um pigarro,
Então eu desamarro os cordões dos sapatos,
E fico descalço observando minha sombra
No meu próprio encalço...

Um sax toca no vazio da sala
E o som ecoa na minha memória:
Um sussurro sonoro
Que se desprende
Como se fossem gotas de orvalho...

Eu imóvel na sala sem móveis,
Observado a água que escorre
Pelas vidraças...

O coração partido
E lá fora a cidade encoberta
A chuva caindo em enxurradas
Mais enxurradas...

Eu sem palavras
Para compor esta canção,
Esta melodia que ressoa
Sutil no meu coração.
Um sax que sola
Um choro baixinho
E eu como um pássaro
Recolhido no ninho...

3. DEPOIS DA CHUVA.

Abri os braços
Na noite
A rua escura
O asfalto
Cheirando
A chuva

Os olhos
Como os de gatos
No breu brilhavam...

Eu estava enfermo, digamos
Ou quase...

A noite transparente
Como uma aquarela
De um noturno
Com suas manchas
Latejando
Sobre o papel poroso...

Eu estava louco, digamos
Ou quase...

Definitivamente desarmado
Ofuscado, talvez
Apenas pelas luzes dos carros...  

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