PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM.
PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM:
IV
CARTAS PARA ANA K.:
Carta 1.
Nos trilhos
Dos desenganos
Meu caminhar é lânguido
E imperfeito
Simplesmente
Habito no mundo
Há muito tempo
Abandonei o luto
E insisto
Nos mesmos caminhos
Que no entanto agora são outros
Alguns longos e outros curtos
Eu simplesmente
Habito no mundo
E sigo
Com passos
Com-passados
Rumo ao futuro
Estou cada vez mais maduro
Não me submeto mais
Aos teus jogos
Tão inseguros
Eu simplesmente
Habito no mundo...
Carta 2.
Já não é das coisas que escorrem
Que a fome surge
Minha imaginação urge
Na ferocidade das horas
Eu sou apenas
Um transeunte a me despir
Como um mendigo
Que vai dormir ao relento...
São lindas estas mulheres
Que a minha imaginação inventa
E é sufocante andar
Sem sentir minhas pernas
E o que posso insinuar
Diante de tantos desejos?
Será que amanhã
Vou achar os mesmos
Que me atormentam hoje?
Eu me apaixono assim
Como quem prepara o jantar
Na espera de alguém
Que não vai chegar...
Carta 3.
Não me desculpes
Por que há em mim
Um coração rebelde...
Bem sabes que a presença
Ou a ausência de cada um
De nada vale.
É um momento fugaz
O que vivemos...
Sou desvairado, eu sei...
Mas não me julgues
Pelo o que você é
Ou por tuas crenças...
Não vamos fazer ameaças de morte
E nem vamos perder a razão.
Não é tempo ainda
De perder a paciência...
Se voltares, quem sabe
Estarei aqui
Com meu coração selvagem
Que insiste em bater
Sempre fora do compasso...
Mas se não voltares,
Tudo bem!
As saudades se dissipam,
Os suspiros se esvaem
E nada dura para sempre...
Carta 4.
Falo na solidão
Não como quem foge de tudo,
não como quem se esconde do tempo...
Minha solidão corriqueira de quatro paredes...
Minha memória ficou perdida
Nas fotografias
Há muito tempo guardadas
E eu me pergunto por quê?
Afinal de contas quem sou Eu e Você
Nestas fotografias antigas?
Nunca mais os almoços de domingo.
As pessoas em volta da mesa,
Cada qual com a beleza intrínseca
De Ser o que se é.
Agora os caminhos são outros,
Alguns morreram,
Outros estão distantes,
Ou serei Eu e Você?
A vida afinal é isto
Este instante após instante.
Serei eu Gulliver na terra de gigantes?
Não vale a pena
A vida sem Prazer.
A dor é contingência do próprio Ser.
O mundo é aparência,
Para quê se esconder?
Vontade de potência
Implica em querer e não querer.
Somos apenas sujeitos diante do poder.
Perante as circunstâncias só nos restas escolher,
Além deste instante somos um eterno acontecer...
Carta 5.
(direito a resposta)
Não tive casos
Apenas descasos
A vida é a vista
Não é a prazo...
Ser sincero
Não é se colocar
Dentro de um terno
O tempo não para
E eu envelheço
Não é agora que
Eu vou aprender
A rezar o terço...
O tempo não para
É verdadeiro
Mas não dá
Pra querer ter razão
A qualquer preço...
A vida é sonho
Não pesadelo...
Carta 6.
Eu não tenho
Sentimentos de culpa
Nem arrependimentos
De nada
Quero viver
Simplesmente
Me aproximar das pessoas
Abraçar
Abrir as portas
Do meu lar
Para os amigos
Entrar
E na cozinha
Enquanto se prepara a comida
As pessoas em volta da mesa
Contar piadas
A beira do fogão
E olhar pela janela
A lua
Na noite clara
Com um ramalhete de flores
Na mão...
A vida é sonho
Não pesadelo...
Carta 6.
Eu não tenho
Sentimentos de culpa
Nem arrependimentos
De nada
Quero viver
Simplesmente
Me aproximar das pessoas
Abraçar
Abrir as portas
Do meu lar
Para os amigos
Entrar
E na cozinha
Enquanto se prepara a comida
As pessoas em volta da mesa
Contar piadas
A beira do fogão
E olhar pela janela
A lua
Na noite clara
Com um ramalhete de flores
Na mão...
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