pequeno CONTO ÍNTIMO.




pequeno CONTO ÍNTIMO:

O relógio da parede
É azul ou branco?
É a parede que é azul
E o relógio branco?
Ou é o relógio que é azul
E a parede branca?
Sei lá! Não sei...

Em mim só crescem ervas daninhas,
E não precisam ser regadas,
Crescem na aridez que há em mim...
E não florescem, apenas crescem volumosas
Enquanto eu fecho os olhos e abstraio...

E o que é a palavra escrita?
Estas palavras tremulas que rascunho
Enquanto sou chacoalhado
Nesta maquinaria que me transporta
Dia-a-dia, noite-a-noite...
Que me leva e me trás
E me trás e me leva
Assim continuamente
Enquanto eu inconsciente de mim mesmo
Escrevo em busca desta espécie de lucidez
Que eu não sei se existe?

E quanto mais eu questiono, examino,
Observo, analiso, faço contas,
Mais estúpido fico...
E fico imaginando questões relativas
Sobre a transição dos mundos,
Devaneio desvairado do nada...
Empalideço e devoro as palavras cruas,
Mantendo o meu eixo firme
Diante da rotação da Terra,
Tão imprecisa quanto às horas do relógio
Para o meu corpo
Que não respeita as leis da gravidade.

E não sinto vertigem
Ao sol do meio-dia.
Tenho fome e como
Um Prato Feito,
Bebo uma cerveja, por que não?
E penso na organização econômica do mundo...
Dos que se saciam e dos que tem fome...

Mas não penso na esperança dos outros
E nem penso na minha própria esperança,
Volto apenas às funções
Que voluntariamente me imponho...
Sigo em frente.
Limpo o ralo do banheiro
De um emaranhado de fios de cabelo...
Borrifo desinfetante nas paredes,
Lavo as mãos com água e sabão de coco...
E lavo o rosto petrificado pela insônia...
E choro... Um choro imperceptível e sem lágrimas...
Um não-choro.
Revejo a frase do meu próprio obituário.

Pressinto a garoa lá fora.
Um novo dia se impõe...
Retiro as pilhas do relógio,
Coloco balas no revolver,
Resolvo pintar a parede de vermelho...
É inútil saber as horas...
Levanto a tampa da privada...
Mijo... Dou descarga... Não há descarga...
Leio as Manchetes dos jornais...
Os homens riem um riso histérico...
E tudo é muito estranho...

Desperto ao primeiro apito do trem
E de novo adormeço...
As portas se fecham e tudo treme.
Uma voz ressoa dos meus sonhos:
“Próxima estação Presidente Altino”.
Eu fico zonzo e me levanto,
Ouço vozes que vem de longe
E o barulho das engrenagens...

- Mas o relógio da parede
Era azul ou branco?

II

Tudo bem...
Tudo certo...
Ainda há luz no fim do túnel.
Ainda há exclamações
De onomatopéias desvairadas,
Reticências
De uma involuntária alquimia
Que se perde...
Interrogações? Por que não? 
E pontos finais
Encerrando frases
Tantas vezes repetidas.

O que me importa
As duas primeiras décadas do século XX?
Adentrei na Nova Era...
Os estudos psicanalíticos de Freud 
Estão ultrapassados
E as incertezas políticas retornaram, 
E não vejo em volta de mim
Nenhum clima favorável,
Mas ainda vivo
Apenas para ser
Uma transição
Entre o real e o imaginário.

Ria a vontade!
Nada melhor que a gargalhada!
Sim... Você está aí
E eu estou aqui
E estamos todos no mundo
E o mundo é um só,
Isto é o que prevalece,
Eu aqui em mim
E você em você mesma, 
Todos nós
Atores e espectadores,
Figurantes
De um mundo de incertezas.

Não mais um animal agonizante...
O que escrevi
Foi apenas um sonho ou pesadelo,
Descrevi-o da forma que me veio,
Eu sou assim de carne e osso
Ao contrário do reflexo do espelho.

O tique taque do relógio
Não me incomoda mais, 
Há muito tempo me desvencilhei de tudo,
A percepção do espaço
É algo tão particular
Assim como a minha maneira de ver o mundo.

É certo que ainda escrevo poemas
E pinto quadros
Com matéria densa
E cores ácidas.

Manter o passo firme
E limpar os restos de comida na pia
São atos tão cotidianos,
Nada ver com conceitos,
Padrões, idéias pré-concebidas.
Ora! Não vamos nos levar assim tão a sério!
A vida não pode
Ser pesada ou medida,
A vida é apenas a vida,
O espaço
É onde o meu corpo habita. 

III

Não falo
Da minha essência
Mas da essência de tudo aquilo o que há
O universo infinito
As profundezas do mar
Aquilo que não tem nome
As coisas que me consomem
E eu não sei explicar...

A minha essência?
Onde é que ela está?
Imagem viva
De uma ferida
constantemente a sangrar...

Estará
Escondido em mim
Aquilo que não tem fim?

Você arrisca um risco
E eu estou a beira do abismo
Mal posso respirar
Não sei se devo voltar
Ou pular...

Também eu quero
Penetrar no espaço sem medo
Pra desvendar seus segredos...

O teu engenho
O teu discurso
Me parecem
Muito profundos
E eu estou submerso
Na perplexidade
Do mundo...

E ainda volto a perguntar-me
Sem espera da resposta
A minha essência
Onde é que ela está?
Imagem viva
De uma ferida
Constantemente a sangrar... 

IV

Um caco quebrado
São cacos de caco
Fragmentos dispersos
Coração despedaçado
Eu não me reconheço mais no espelho
Imagem da minha imagem
Rompi o invólucro
Lasca por lasca
Não sobrou nem mesmo
Um pedaço da casca
Agora vago
Divago
Rasgo página por página
Nenhuma lágrima perdida
Ao acaso...

FIM.

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