POÉTICA DO ESPAÇO.



POÉTICA DO ESPAÇO: ( A partir da leitura de Gaston Bachelard)

I

Eu sou
O espaço a onde estou
E
Tudo em volta participa daquilo que sou
Refugio-me num canto da casa
Vago
        Divago
E nesta solidão me reconstruo
Me recomponho  
Parte por parte
Metade
            Metade

Então sou tudo e sou nada?
No devaneio da casa
Vagueio parado
Para todos os lados
Que o meu olhar alcança
Meu corpo recolhido num canto
Como num abrigo

Depois
           Levanto-me
E percorro os cômodos da casa
Do trajeto entre a cozinha e a sala
E percebo que EU sou EU
Num passe de mágica subjetividade
Percebo
A casa é o meu abrigo seguro
A hora é a hora que passa
O agora
O já
O que há e não há
O ar que é o espaço que ocupo
O mar
O mundo
Então é isso que sou e não sou?
Na casa
Aprofundo-me
Me perco
E me esqueço de tudo
No quintal há um jardim

Trepadeiras crescem no muro

II

Sonhei com um ninho
Onde as árvores
Desdenhavam a morte

As árvores seculares
Há tanto tempo imóveis
E não imóveis
Ao sabor do tempo

Calor e tempestades
Dias de chuva e de estiagem

E o solo
Onde raízes
Estavam entranhadas
E as pessoas
Que por ali passavam
Durante anos e anos

Sonhei
Portanto
Com esse ninho
Ali oculto
Entre as ramagens
Daquela árvore

O ninho
Com seus ovinhos cinzentos
De Melharucos

Tudo ali era bem estar,
Um aglomerado
De terra e céu,
De vida e morte...

E eu tinha esses pensamentos,
Eu construía imagens...
Todo um mundo
Repleto de ninhos
De andorinhas...

 III

O homem
                 Permanece mudo
Diante do nada...

Ouve-se apenas
No final da tarde
Os chilreados
No interior da árvore...

E pela manhã
Quando o sol mal surge
Com seus primeiros raios

O canto dos pássaros que despertam
E se reúnem para celebrar o dia...

IV

Permaneço na imobilidade

O "canto" é uma espécie de caixa
A onde permaneço em silêncio
No meu refúgio

Um aposento imaginário
Constrói-se em torno do nosso corpo
Que se acredita bem escondido
Quando nos refugiamos
Num canto.

Eis eu aqui no meu refúgio
Delineando o meu espaço
Absorvido nele, fundido a ele
Sou o espaço a onde estou
(e tudo em volta participa daquilo que sou).

 A dialética do cheio e do vazio
 Corresponde a duas realidades geométricas

Eis tudo
A alma
Enfim
De toda esta velha poeira


E sobre o fundo de tudo
Aquilo que se acredita
                                     A infância retorna
                                     Com toda a sua perversidade.

A memória
E a des-memória

                                     Os objetos antigos
                                     Que nos interrogam
Os objetos usados
Com suas histórias

O armário (por exemplo)
E suas recordações,
E as gavetas com seus entulhos
De coisas esquecidas...

A imobilidade
                     Enfim
Condensada dos objetos
Associados as mais longínquas viagens

Todas estas coisas
Estão longe...

E isto sou Eu
Superfície organizada
Em negro e branco

V

Diante
     Da grandeza do mundo
                                       Em que fomos lançados

Na imensidão do universo

                                       A expansão da vida

Além de todos os limites
Impostos pelos espaços delimitados

Aprofundamo-nos
Neste mundo sem limites

De devaneio e meditação...

Na imensidão que está em nós

Na solidão
De dias e dias

No sofrimento
Na dor de frustrações sem conta

                                              Na ilusão de uma miragem...

No deserto árido que se estende na nossa alma,
Na calma dos dias que passam...

VI

A  floresta se estende misteriosa

Os bosques refrescantes
                                   E a mata fechada
As clareiras

O orvalho
Brilho cristalino sobre folhagens reluzentes

Os insetos em variedades
Os bichos
Tudo
Ali durante anos

Eu estrangeiro
Perdido no bosque e na planície
A beira do riacho

Eu descendente de ancestrais
Que por ali passaram
Derrubando árvores
E construindo casas
Outrora assentadas
Sobre pedras milenares

Eles oprimidos
Por vastos pensamentos
Vivendo no vasto silêncio do campo


Vasto como a noite
E como a claridade

O reencontro pela lembrança
Da extraordinária volúpia
                                           Na solidão absoluta
O horizonte a vista
Com sua luz difusa

E o espaço
Em volta
       Dentro e
Fora de nós

O infinito
Que não concebemos
Mas suspeitamos em nós

Em tudo o que há
Que não se explica...




Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

PAISAGENS/MIRAGENS E RITOS DE PASSAGEM.

O EX-MÁGICO DA TABERNA MINHOTA

DESENHO.