SOMOS TODOS HAMLET.





SOMOS TODOS HAMLET
Roteiro para Performance solo.
 Soneto das Vinganças Paralelas:

"Um minuto de silêncio
Pro Cabrito que morreu,
Se hoje a gente samba
É que o couro ele nos deu"

Soneto das vinganças paralelas.
Sidônio  Muralha.

Distorço o tempo, que ninguém me force
A ser o que não sou desde criança.
Distorço o tempo e ele me distorce
Vingativo ao vingar-se da vingança.

Que seja dito em verso, em luz, em Morse:
O tempo não merece confiança.
Torcer ou distorcer o que nos torce
Não cansa o tempo mas a nós nos cansa.

Cansa sem descansar este cansaço
Do tempo passo a passo quando passo
Pois se não passo o tempo passaria

Passaria se acaso o tempo existe
Neste triste tristeza de ser triste
E acreditar alegre na alegria.

Poema de sete faces:
Drummond

Quando eu nasci
Um anjo torto, desses que vivem na sombra
Disse: Vai Carlos ser Guache na vida.

As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres
A tarde, talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas, pretas, amarelas.
Para quê tanta perna meu Deus,
Pergunta o meu coração,
Porém os meus olhos não perguntam nada!

O homem atrás do bigode é sério
Simples e forte,
Quase não conversa,
Tem poucos, raros amigos.
O homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus porque me abandonasses!
Se sabias que eu não era Deus!
Se sabias que eu era fraco!

Mundo, mundo, vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo,
Seria uma rima,
Não seria uma solução.
Mundo, mundo, vasto mundo!
Mais vasto é o meu coração.

Eu não devia te dizer
Mas esta lua, mas este conhaque,
Deixa a gente comovido
Como o diabo! 

A flor e a Náusea.
Drummond

Preso a minha classe e há algumas roupas
Vou de branco pela rua cinzenta,
Mercadorias, melancolias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso sem armas revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre.
Não! O tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
Alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
Fundem-se no mesmo impasse,
Em vão me tento explicar,
Os muros são surdos.
Sob a pele das palavras a cifras e códigos,
O sol consola os doentes mas não os renova.
As coisas? Que triste são as coisas consideradas sem ênfase!

Vomitar este tédio sobre a cidade!
Quarenta anos e nenhum problema resolvido,
Sequer colocado.
Nenhuma carta recebida e nem enviada.
Todos os homens voltam pra casa,
Estão menos livres mas levam jornais e soletram o mundo
Sabendo que o perdem.

Crimes da Terra! Como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi,
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves que ajudam a viver,
Ração diária de erro distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal!
Os ferozes leiteiros do mal!

Pôr fogo em tudo! Inclusive em mim!
Ao menino de 1918 chamavam anarquista,
Porém o meu ódio é o melhor de mim,
Com ele me salvo e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua...
Passem de longe ônibus, bondes, rios de aço do tráfego!
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio,
Paralisem os negócios!
Garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe,
Suas pétalas não se abrem,
Seu nome não está nos livros,
É feia! Mas é realmente uma flor!

Sento-me no chão da capital do país as cinco haras da tarde,
E lentamente passo a mão nesta forma insegura,
Do lado das montanhas nuvens maciças avolumam-se,
Pequenos pontos brancos movem-se no mar,
Galinhas em pânico!

É feia... Mas é uma flor...
Rompeu o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio!


José.
Drummond

E agora José
A festa acabou.
A luz apagou.
O povo sumiu.
A noite esfriou.
E agora José?
E agora você?
Você que é sem nome,
Que zomba dos outros,
Você que faz versos,
 Que ama, protesta?
E agora José?

Está sem mulher,
Está sem discurso,
Está sem carinho...
Já não pode beber,
Já não pode fumar,
Cuspir já não pode!
A noite esfriou,
O dia não veio,
O bonde não veio,
O riso não veio,
Não veio a utopia
E tudo acabou,
E tudo fugiu,
E tudo mofou...

E agora José?
Sua doce palavra,
Seu instante de febre,
Sua gula e jejum,
Sua biblioteca,
Sua lavra de ouro,
O seu terno de vidro,
Sua incoerência, seu ódio,
E agora?

Com as chaves na mão quer abrir a porta,
Não existe porta!
Quer morrer no mar
Mas o mar secou!
Quer ir para Minas,
Minas não há mais!
José e agora?

Se você gritasse,
Se você gemesse,
Se você tocasse a Valsa Vienense,
Se você dormisse?
Se você cansasse? 
Se você morresse?
Mas você não morre!
Você é duro José!

Sozinho no escuro
Qual bicho do mato,
Sem teogonia,
sem parede nua para se encostar,
Sem cavalo preto que fuja a galope!
Você marcha José!
José... Para onde?

Hamlet:
Shakespeare.

Ser ou não ser? Eis a questão:
É mais nobre na mente
Sofrer com as pedras e setas da sorte ultrajante
Ou erguer armas contra um mar de dificuldades
E dar-lhe fim?!
Morrer... Dormir não mais!
Dormindo damos cabo das dores do coração
E dos mil abalos naturais dos quais a carne é herdeira.
Sim... è uma consumação devotamente desejada:
Morrer! Dormir!
Dormir por ventura sonhar...
Sim... Aí está o obstáculo!
Pois neste sono de morte a onde sonhos podem vir
Eliminado o tumulto mortal devemos ponderar.
Eis aí a consideração que concede a calamidade
Tão longa vida.
Pois quem suportaria o chicote a as zombarias do tempo,
A invectiva do orgulhoso, a injustiça do opressor,
A dor aguda de um amor desprezado,
A demora da lei,
a insolência de funcionários?
Quando é possível livrar-se do grilhões da vida
Com uma reles adaga?
Quem tais fardos suportaria a grunhir e a soar
Numa vida desgastante
Não fosse o temor por algo além da morte?
Este indevassado país
Cujo os limites viajante algum retorna
E que nos faz preferir tolerar estes sofrimentos
A voar rumo aqueles que não conhecemos!
Assim a consciência nos faz a todos covardes!
E assim o matiz nativo da determinação
Se enfraquece ante ao pálido alcance dos pensamentos,
E audácias de grande vigor e essência
Com estas considerações perdem o nome da ação!
Há algo de podre no reino da Dinamarca!





No meio do caminho:
Drummond

No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei deste acontecimento
Na vida de minha retinas tão fadigadas
Nunca me esquecerei
Que no meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho.



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