TRANSFIGURAÇÃO POR UM TEMPO DE PAZ.




TRANSFIGURAÇÃO POR UM TEMPO DE PAZ. (poemas de vida e morte)

Dedicado ao poeta TORQUATO NETO.

Roteiro Literário.

Prólogo:

CORO.

A agonia ia
                    ia
                       ia
E depois
               Voltava
A agonia ia
                    ia
                       ia
E depois
Voltava...

Voava entre paredes nuas...
Se desnudava frente ao meu rosto...

Vinha
          Vinha
                    Vinha

Vinho!
Vodka!
Pinga!

Gás de cozinha!
Descartado!

Gás de cozinha!
Descartado!

Meu sangue
                     gotejava
                                     na
                                          pia
                                               pia
                                                     pia...


CENA 1:

I


Eu que sou
Um vampiro subnutrido
Que vaga pelas noites alucinógenas,
Não posso corromper a solidão que me nutre,
Assim como a vida não pode deixar
De ser contraditória
Na sua trajetória para a morte.
Eu que vivo apenas para ser uma transição
Entre o Real e o Imaginário...

Andarilho dos subúrbios,
Se alvará, vaidade,
Sem ancestrais,
Nascido do caos da civilização,
Cidadão sem pátria e sem religião,
Anelante anêmica criatura...

Prefiro a noite:
Antecipar o dia,
Rasgar o calendário,
Caminhar no sentido anti horário.
Anteceder o dilúvio,
Aparar as desgraças do mundo
Num tubo de ensaio...

Prefiro a noite:
Luzes de neon,
Minha aflição aparvalhada,
O silêncio mórbido das madrugadas,
A lua mudando a minha fisiologia...

Eu que não tenho moradia,
Que vivo a noite vivendo o dia,
Que tenho a dívida maior do mundo
E carrego a cruz que foi de Cristo...

Tenho chagas que são profundas
E tenho sonhos já carcomidos...

Eu que sou regido pelo sol,
Que trago o fogo em labaredas,
Trago a lua como estandarte
E os planetas sobre os meus dedos...

II

Nau
Do tempo

Futuro a naufragar

Amotinado
Os dias que chegam
Se suicidam

O futuro
É alhures
Para todo sempre

Náuseas
Me causam

Este nascer
E morrer
Constantemente... 

CENA 2:

(CORO)


Há pessoas nas calçadas
                                             Pessoas donas de nada...
Há pessoas nas calçadas
                                              Pessoas donas de nada...
Há pessoas nas calçadas
                                               Donas de nada...
Há pessoas nas calçadas
                                                Donas de nada...
Há pessoas
                      Donas de nada...
Há pessoas nas calçadas...

(Quem vê?)

I

Aqui na metrópole magnânima,
Entorpecida, narcotizada,
Com ópio e heroína,
Megalópole embrutecida,
Com rios apodrecidos e deteriorados,
E chaminés colossais sobre o horizonte!

Grito! O meu grito cheio de ecos!
Berro atômico estridente!
Trafego os meus pés pesados,
O meu corpo suspenso pelos ombros,
Os meus olhos vermelhos esbugalhados,
O meu hálito amargo pela manhã...

Em meio a enxofre e gasolina
Os motoristas soltam suas vísceras
Sobre os semáforos
E seus escarros sobre o asfalto,
Que é mais um rio negro e metálico
Fluindo para a boca do inferno!

Escondo-me sobre cubículos amarelados,
Onde durmo o meu sono,
Que é mais uma morte prematura,
Onde pela manhã ressuscito,
Não como Lázaro,
Mas como um demônio de sete cabeças,
Ou como um Centauro,
Na minha condição de ser homem
E ser cavalo!

(CORO)

Suburbanos
                     Subúrbio humano
Submundo
                      Sub-humano...

Sub terra vagueiam vagões...
Sobre a Terra
                         Vagões vagueiam
Homens...

Vagam máquinas
                                Engrenagens
Músculos inoxidáveis
                                       Movem-se...

Vagam em vagas luzes: Vaga-lumes
                                                                 Vagabundos
                                                                                        Vaga
                                                                                                 Mundos...

CENA 3: (Ode a Sierguéi Iessiênin)

I

Tempo morto...
Tempo demasiado
Dormindo acordado...
Iessiênin se enforcou em Leningrado.
Tempo de desilusões,
Tempo passado.
Como cogitar enigmas
se minha cota de rimas
Está esgotada?
Na sua boca cerrada
Sierguéi, camarada,
Mais de setenta anos nos separam
E o Oceano Atlântico.
Nem comunismo ou socialismo que nos baste!

Tempo de desilusões!
Ébrias noitadas!
Eu digo: Basta!
               Basta!
               Basta!

Hora de armar barricadas,
Arrumar as malas,
Tirar o pó dos poemas: Inúteis...
                                           Inúteis...
                                           Inúteis...

Tempo de desilusão! Eu repito!
Onde estão os meus sapatos?
Onde estão os meus amigos?

Só um bilhete na cabeceira da cama ficou.
O sangue coagulou o poema
Sierguéi Iessiênin!
A posteridade está adormecida
No seu leito de morte!


II

O crime estava
                           Ali
Exposto...

Uma fotografia amarela,
Uma notícia esquecida na gaveta
Uma sombra na parede
De terno e gravata...

Estava ali
Exposto
A decomposição do tempo

O corpo
E seus momentos memoráveis

Num silêncio fúnebre
De cadáver...   

CENA 4:

I


É como se ele apenas
Caminhasse na sombra do tempo,
Vulto a vigiar as horas incertas...

Na espreita
                     Na espera
De quem nunca chega...

É como se a cada momento
Ele fosse
                 Outro
Outro que não Ele mesmo...

E vivesse a guardar segredos
Dele para com Ele...


II

Nu com a minha lâmina
Dispo-me de minha carne,
Um silêncio rugidor de latido de cão
Reverberando noite afora...

Os escombros rodeados
Do presente vivo do passado...

Meu corpo nauseante,
Cambaleante,
Embriagado de lua
E a luminosa face contorcida,
Ébria sobre o toque da navalha fria
Que delicadamente faz a barba
Esbranquiçada pelos anos...

Um pensamento perpassa
Guardado na memória
Como numa gaveta fechada a chave:
Tudo o que fui
                     E o que não pude ser...
Tudo o que fiz
                     E o que deixei de fazer...

  CENA 5:

"Eu me sentia seguro de mim mesmo no palco...
Agora eu estou constrangido, devo confessar,
Eu sofro diante de gente que me olha friamente
E me diz baixinho: Nós já sabemos isso...
Isso é velho... É cansativo..."
(Máximo Gorki)

I

É preciso dizer
Que eu estou confuso...
Que eu me enrosco nos livros que leio...
Que eu me perco
No labirinto das possibilidades plausíveis...
E que o meu pensamento se esvai
Nos intervalos dispersos
Das atividade caseiras e cotidianas...

Muitas coisas a serem feitas inadiáveis,
Milhares de pequenas atitudes
Que não podem ser renegadas
Na decorrência crucial do dia...

Ah! Como eu me perco
Limpando as estantes,
Tirando o pó das prateleiras,
Rasgando folhas e endereços
Que sempre me foram inúteis,
Mas que os guardei como se fossem tesouros...

Inúteis telefones em cartões de visita,
Anotações esparsas nas agendas antigas
Que eu nunca usei...

Estou irremediavelmente perdido, confesso,
Inseguro diante do abismo
Que se abre sob os meus pés
Em pleno assoalho da cozinha...

(CORO)
Ecos
        É só o que ouço
De mim mesmo...
Ecos
        É só o que ouço
De mim mesmo...
Ecos
        É só o que ouço
                                   É só o que ouço
                                                              É só o que ouço... 

CENA 6:

(monólogo principal 1)  

MANIFESTO DA BANANA NANICA:

Êxtase!
É o que interessa?
É o que interessa?

Todos se foram prematuramente,
Nem antropofagia nem tropicália
Nos couberam.

Polido o esqueleto de Pedro Álvares Cabral,
Carnaval, mídia global,
Coca-cola, Cocaína...

Nem êxtase nem orgasmo total.

Deglutimos o Pop, o Parangolé, o picolé da Kibon,
Nos resta os restos, as fezes, os ossos, o pó
Desta deglutição antro-pó-fágica.

Da mídia nada nos resta de original.
Ora! Mas tudo é hermético
Na desmemoria do país,
Então edifiquemos a anti-obra
Na efemeridade dos dias.

O que é concreto, palpável, invisível, abstrato
E o que está além, muito além
Do horizonte provável.
Delírios plasmáticos?
Alucinógenos?

Nada a concluir!
Criar o código:
Apagar todas as palavras de A a Z,
Transmutar a matéria é preciso silêncio,
Morte.
Vida além dos limites da linguagem.

Ismos? Códigos para manter a conversa?
Ou controvérsias?
Diálogos?
Logos-tipos diversos?
Diversidade?
Ponto de vista além da perspectiva cientifica.

Nem arte nem anti-arte!
Instaurada a caganeira nacional!
Bananas!
Bananas!
Bananas!
Bananas ainda nos restam.
(diz a manchete)

Favelas erguidas nos morros,
Cartão postal,
Navalha suja de sangue,
Prédios da Av. Paulista,
População, povo, multidão,
Massa amorfa, colisão!
Ideais assassinados,
Nem cinema nem teatro,
Só o anonimato desta escrita,
Desta descontinuação,
Deste lapso da memória!

Polêmica?
Ruptura?
Tradição?
Ou
Uma sombra no tempo rotulada?
Realidade?
Ilusão?

Bananas...
Bananas...
Bananas...
Bananas ainda nos restam.


(monólogo principal 2)

 BREVE

Breve eu estarei morto,
Não importa
os dias, os meses, os anos...
A morte é sempre breve e nunca tarda.

Querem a palavra "novo",
O ovo de Colombo repensado?
Hoje mesmo eu acordei tarde,
Sem perspectivas,
Apenas um hálito amargo na boca
E lembranças de sonhos frescos...

É um louco - Diriam...
Ou um vagabundo!
Mas o que sabem eles da loucura
Ou da vadiagem sadia que vivo?

Me tragam conhaque, por favor,
Ou me tragam vinho!
Preciso me embriagar!
É preciso transformar a linguagem,
Ela é um pedaço de pão duro
Difícil de mastigar.

As minhas malas há muito estão prontas
E o meu terno já veio da lavanderia,
Apenas o silêncio me incomoda
E é por isso que eu grito!
Que me perdoem os vizinhos
Hoje não é dia de se matar!

Chega! Destes pensamentos inconsistentes!
Chega! De não dizer nada!
De permanecer calado!
Isto são apenas rascunhos - Diriam...
Melhor rascunhos do que nada,
Ou do que a ordenação lógica das palavras...

Viva a incoerência do pensamento!
A fatalidade da vida!
Do que me vale o caos organizado?
Como pão com banana,
Tomo café com bolacha,
E fumo um baseado...
E não tenho discursos,
Apenas um monte de palavreados
Amontoados uns em cima dos outros,
Não tenho treinamentos de guerrilheiro
Nem pretensão de ser Revolucionário Latino-americano!

O meu reino é o das malocas,
É o das favelas cibernéticas,
E se segura malandro!
Só sobrarão as baratas e traças roendo livros!

Preciso urgentemente
Escrever minha autobiografia!
Preciso urgentemente plantar uma árvore
Ou compor um samba!

Mas por enquanto preparo o meu arroz integral
Que eu tô com fome e com saudades da Bahia,
Que esta solidão... Esta solidão
Me dói a barriga...

Do que me vale ser poeta?
Mais vale uma cerveja gelada
Do que rimas e versos!
- E aí Baby, bate um WhatsApp pra mim
Que eu tô ligado na sua, hem?
Manda uma Self!

Jogo de palavras - Diriam...
Jogo de palavras...

CENA 7:

(CORO)

O relógio
Em seu movimento mecânico
Dita as horas...
                           Dita as horas...
                                                     Dita as horas...

Tão p a u l a t i n a m e n t e

o ponteiro             
                  G
                      i
                        r
                           a

Que nem se percebe
O passar                             do                           tempo

Na repetição dos segundo
                      repetição dos segundos
                                      repetição dos segundos...

I

Quando a chuva
Encharcar nossos ossos
E fizer silêncio sobre nossos túmulos
O que saberemos
Da vida que vivemos?

Nossas cicatrizes
estarão para sempre
Ocultas...

E nossas frases derradeiras
Serão repetidas
Por mais algumas semanas...

Depois o esquecimento
De tudo aquilo que fomos.
Um esquecimento puro e simples,
Que pouco a pouco
Nossos nomes
Vão apagando...

II

Não me matarei hoje...
E nem amanhã,
Minha vida esvai-se...  Eu sei!
Meu destino é me perder nas multidões,
Estar sempre a partir e a chegar,
A nascer e a morrer
Ao sabor das estações.

Na vida não quero ter nenhuma esperança:
Saber que o dia nasce, e noite vem e a madrugada chega
E assim por diante..
.
Portanto, não me matarei hoje
E nem amanhã.

Esperanças vãs?

Sonhos loucos?

Juventude?

Tudo passa!

Num redemoinho incontrolável
A mudar a paisagem.

Encaremos os fatos:
Nós passamos pelo tempo,
Enquanto os dias se repetem
Num desvairado turbilhão
Que nos escapa!

 CENA 8:

11 de Setembro:


O dia azulava o sol...
Eu vinha em viagem
Sem horizonte a vista...

Tremia dos pés a cabeça,
Espasmos no corpo de nervos
E dores no estômago
Formando cicatrizes...

Eu ria diante do cachorro morto,
O cachorro ria com se estivesse vivo
Contorcido de uma doente saudade sem esperança...

Alinhavava o meu destino,
Me achava onde me perdia
E o dia se desfazia
Alaranjando o céu,
Avermelhando o horizonte...

II

Os dia são tenebrosos,
Pressinto-os sobre o meu corpo,
E no pulsar dos relógios
As badaladas das horas
Transfiguram o meu rosto...

Nuvens negras encobrem o céu,
Como nuvens de gafanhotos...

As janelas das casas se fecham
Pros dias negros que vem chegando...

III

Não há glórias e nem martírios!
Deixai de lado a vaidade...
A vida é simples,
Eis aí toda complexidade!
De nada nos serve a arrogância
E a modéstia é para os fracos!

Não há glórias e nem martírios,
Eis aí uma verdade!
É uma fração de segundos
A distância entre a vida e a morte,
E a vida é quase toda feita de futilidades...

Sim! Desçamos aos esgotos,
Convivamos com os ratos
Ou nos tornemos em lobos!

Cansa-me ser
Demasiadamente humano!

CENA 9:

(as últimas palavras de Hamlet)

Em mim
Este arrepio...
Redemoinho indomável
Dos meus escombros.

E este amor delicado
Em meio ao turbilhão
Leve como o vôo de um pássaro...

Este sentimento que cresce
Feito uma lua cheia
Resplandecente em meio a tantas ruínas...

Cintilante, devo dizer
Como uma lantejoula.

Tudo em mim se exalta
E cresce descontroladamente
Latejante em seu movimento
Que se expande além do meu corpo...

E esta sensação de grandeza
De imensidão inexaurível
Que o silêncio sugere
Sutilmente...

(As luzes vão lentamente abaixando até uma penumbra no espaço cênico, os atores permanecem em silêncio, imóveis por alguns instantes como numa fotografia até a escuridão total)

FIM.  


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