NOVA MEDITAÇÃO SOBRE O TIETÊ.
Nova Meditação Sobre o Tietê:
Para; Mário de Andrade.
É noite...
Tudo é noite
Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras...
É noite e tudo é noite...
Soturnas sombras tão vastas,
Água noturna,
Líquida noite escura...
Meu Tietê
Cheio de luzes trêmulas
E águas fétidas
Rodeadas por arranha-céus valentes
E congestionadas marginais.
Águas oleosas e pesadas
Onde tudo é morte,
Um rumor de vermes insalubres,
Onde tudo é lúgubre,
Onde tudo é lama escura
Carregando o sofrimento dos homens.
Nada me amarga mais,
Nem a recusa,
Nem a vitória do individualismo,
Nem o egoísmo
Desta felicidade deslumbrante
De estar eu aqui agora.
Mas ao mesmo tempo tudo me desgasta
E me dispersa
Por todos os descaminhos,
Tramas onde a aranha insana se perdeu,
Cisco e pólen de cadáveres,
Verdade e ilusões insaciáveis...
Rio,
Meu Rio
Em Cujas águas sujas
Despertei
Melancólico e frágil...
Reporto-me as tuas águas
Espessas de infâmias oleosas...
Minhas vozes perdidas
Rosnam pesadas
Varando terra adentro
Numa angustiada espera.
Mas as suas águas passam
Carregadas de despojos,
De notícias que se afogam
Dentro da noite podre,
E depois morrem,
Como tudo morre.
Isto não são águas que se beba,
Isto não são águas que se banhe.
Mas a culpa não é sua Tietê,
A culpa é dos homens,
Ilustríssimos senhores vereadores deputados senadores,
A culpa é do Instituto Histórico Geográfico,
Do museu de coisas podres,
Dos mercados exteriores,
Da tribuna divina do Cristo esquartejado,
Das ruas abertas como chagas,
Da ambição sem par que caminha
Junto com o progresso da humanidade,
Da demagogia universitária...
E quem sou eu aqui nesta cidade?
Quem somos todos nós?
Quem somos nós?
Quem somos Tietê?
O corpo do meu pai assassinado
Está boiando neste rio torturado,
Rio de pau de arara,
Rio dos enforcados.
Pai Tietê!
Suas águas são espumantes e espessas como os versos de Dante.
Uma moeda para Caronte
E sigamos juntos para o Hades.
Quem sou eu Tietê? Eu pergunto à suas margens
Onde passeiam capivaras imundas e enfermas.
Onde todos os dejetos são despejados.
Quem sou eu meu caro Mário de Andrade?
Eu que atravesso esta cidade
Nos vagões abarrotados da CPTM,
Sem pudor em meio à coletividade,
Perdido na verticalidade dos arranha-céus,
Em meio à periferia que prolifera
De garotos traficantes em suas velozes motocicletas,
Eu, poeta do nada,
Do caos metropolitano,
Eu sub-urbano.
É nas suas margens Tietê
Que eu vejo o meu turvo reflexo.
De Salesópolis a Itapura quantas faces você tem Tietê?
Haverá uma face límpida em algum ponto recôndito onde você passa
Ainda não poluído pela civilização humana?
Tietê da minha infância,
Da minha adolescência e juventude,
Tietê da minha idade madura!
Quando eu estiver por fim definitivamente morto
O meu corpo será diluído em suas águas
E as minhas cinzas germinarão flores sobre as suas margens.
E a minha casa construída pelos meus pais
Na Rua Lopes Chaves estará demolida
Para que passem as avenidas novas
Que levam para outros lugares,
Mas você ainda estará lá Tietê
Rasgando a cidade como uma ferida infeccionada.
22/04/2014.
Comentários
Postar um comentário