BÁRBARA.
BÁRBARA.
Texto de Murilo Rubião.
Texto de Murilo Rubião.
Adaptação cênica: Gabriel Arcanjo Rodrigues.
Cenário: O público deve estar disposto em
semicírculo. ao iniciar o espetáculo houve-se um som de apito de navio ao sair
do porto, um foco de luz vai se abrindo sobre o personagem que está sentado em
uma cadeira, totalmente imobilizado por uma camisa de força e com os olhos
vendados. Ao longo do seu monólogo imagens serão projetadas que representam o
seu inconsciente manifestado. O tempo todo o som das ondas do mar batendo sobre
o litoral.
Voz em off: "O homem que se extraviar do caminho
da doutrina terá por morada a assembléia dos gigantes" (Provérbios. XXI,
16).
Aos poucos o foco vai incidindo sobre o
homem sentado na cadeira. Toca o apito de navio.
Primeira parte: Os Pedidos de Bárbara.
1) Bárbara gostava de pedir. Pedia e engordava... Pedia e
engordava... Pedia e engordava... Por mais absurdo que pareça, encontrava-me
sempre disposto a lhe satisfazer os caprichos. Em troca de tão constante
dedicação, dela recebi frouxa ternura e pedidos que se renovavam continuamente.
Não os retive todos na memória, preocupado em acompanhar o crescimento do seu
corpo, se avolumando... Se avolumando... Se avolumando à medida que se ampliava
sua ambição.
2) Se ao menos ela desviasse para mim parte do carinho
dispensado às coisas que eu lhe dava, ou não engordasse tanto, pouco me teriam
importado os sacrifícios que fiz pra lhe contentar a mórbida mania
3) Quase da mesma idade, fomos companheiros inseparáveis na
meninice, namorados, noivos e, um dia casamos. Ou melhor, agora posso confessar
que não passamos de simples companheiros.
4) Enquanto me perdurou a natural inconseqüência da infância,
não sofri com suas esquisitices. Bárbara era menina franzina e não fazia mal
que adquirisse formas mais amplas. Assim pensando, muito tombo levei, subindo a
árvores, onde os olhos ávidos da minha companheira descobriam frutas sem sabor
ou ninhos de passarinho. Apanhei também algumas surras de meninos aos quais era
obrigado a agredir unicamente para realizar um desejo de Bárbara. E se
retornava com o rosto ferido, maior se lhe tornava o contentamento. Segurava-me
a cabeça entre as mãos e sentia-se feliz em acariciar-me a face intumescida,
como se as equimoses fossem um presente que eu lhe tivesse dado.
5) às vezes relutava em aquiescer às suas exigências, vendo-a
engordar incessantemente. Entretanto, não durava muito a minha indecisão.
Vencia-me a insistência do seu olhar, que transformava os mais insignificantes
pedidos numa ordem formal. (Que ternura lhe vinha aos olhos, que ar convincente
o dela ao me fazer tão extravagante solicitação!)
PAUSA. Som de apito de navio. Ao fundo
imagem do mar.
Segunda parte: O Oceano e o Nascimento da
Criança.
1) Houve tempo - Sim, houve - em que me fiz duro e ameacei
abandoná-la ao primeiro pedido que recebesse. Até certo ponto, minha
advertência produziu o efeito desejado. Bárbara se refugiou num mutismo
agressivo e se recusava a comer ou conversar comigo. Fugia à minha presença,
escondendo-se no quintal e contaminava o ambiente com uma tristeza que me
angustiava. Definhava-lhe o corpo, enquanto crescia assustadoramente o ventre.
2) Desconfiado de que a ausência de pedidos em minha mulher
poderia favorecer o aparecimento de uma nova espécie de fenômeno, apavorei-me.
O médico me tranqüilizou. Aquela barriga imensa prenunciava apenas um filho.
3) Ingênuas esperanças fizeram-me acreditar que o nascimento da
criança eliminasse de vez as estranhas manias de Bárbara. E suspeitando que a
magreza e palidez fossem prenúncio de grave moléstia, tive medo que, adoecendo,
lhe morresse o filho no ventre. Antes que tal acontecesse, lhe implorei que
pedisse algo. Pediu o oceano.
4) Não fiz nenhuma objeção e embarquei no mesmo dia, iniciando
longa viagem, ao litoral. Mas frente ao mar, atemorizei-me com o seu tamanho.
Tive receio de que a minha esposa viesse a engordar em proporção ao pedido, e
lhe trouxe somente uma pequena garrafa contendo água do oceano.
5) No regresso, quis desculpar meu procedimento, porém ela não
me prestou atenção. Sofregamente, tomou-me o vidro das mãos e ficou a olhar,
maravilhada, o líquido que ele continha. Não mais largou. Dormia com a
garrafinha entre os braços e, quando acordava, colocava-a contra a luz, provava
um pouco da água. Entrementes, engordava... Engordava... Engordava!
7) Receoso de que dali saísse um gigante, imaginava como seria
terrível viver ao lado de uma mulher gordíssima e um filho monstruoso, que
poderia ainda herdar da mãe a obsessão de pedir as coisas. Para o meu
desapontamento, nasceu um ser raquítico e feio, pesando um quilo.
8) Desde os primeiros instantes, Bárbara o repeliu. Não por ser
miúdo e disforme, mas apenas por não o ter encomendado.
9) A insensibilidade da mãe, indiferente ao pranto e à fome do
menino, obrigou-me a criá-lo no colo.Enquanto ele chorava por alimento, ela se
negava a entregar-lhe os seios volumosos, e cheios de leite.
PAUSA: Apito de navio. Imagem do Baobá.
Terceira parte: O Baobá.
1) Quando Bárbara se cansou da água do mar, pediu-me um baobá,
plantado no terreno ao lado do nosso.
2) de madrugada, após certificar-me de que o garoto dormia
tranquilamente, pulei o muro divisório com o quintal do vizinho e arranquei um
galho da árvore.
3) Ao regressar a casa, não esperei que amanhecesse para
entregar o presente à minha mulher. Acordei-a, chamando baixinho pelo seu nome:
Bárbara... Bárbara... Bárbara... - Abriu os olhos, sorridente, adivinhando o
motivo por que fora acordada: - Onde está? Aqui! E lhe exibi a mão, que trazia
oculta nas costas. - Idiota! Gritou, cuspindo no meu rosto. - Não lhe pedi um
galho! E virou para o canto, sem me dar tempo de explicar que o baobá era
demasiado frondoso, medindo cerca de trinta metros de altura.
4) Dias depois, como o dono do imóvel recusasse vender a
árvore separadamente, tive que adquirir toda a propriedade por um preço
exorbitante.
5) Fechado o negócio, contratei o serviço de alguns homens que
munidos de picaretas e de um guindaste, arrancaram o baobá do solo e os
estenderam no chão.
7) Alheia à gratidão com que eu recebera a sua lembrança, assistiu a murchar das folhas, e ao ver seco o baobá, desinteressou-se dele.
8) Estava terrivelmente gorda. Tentei afastá-la da obsessão, levando-a
ao cinema, aos campos de futebol. (O menino tinha que ser carregado nos braços,
pois anos após o seu nascimento continuava do mesmo tamanho, sem crescer uma
polegada.) A primeira idéia que lhe ocorria nestas ocasiões, era pedir a
máquina de projeção ou a bola, com a qual se entretinham os jogadores. Fazia-me
interromper, sob o protesto dos assistentes, a sessão ou a partida, a fim de
lhe satisfazer a vontade.
9) Muito tarde verifiquei a inutilidade dos meus esforços para
modificar o comportamento de Bárbara. Jamais compreenderia o meu amor e
engordaria sempre.
10) Deixei que agisse como bem entendesse
aguardei resignadamente novos pedidos. Seriam os últimos! Já gastara uma
fortuna com suas excentricidades.
PAUSA: Apito de navio. Imagem de um transatlântico.
Quarta parte: O Navio.
1) Afetuosamente, chegou -se para mim, uma tarde, e me alisou
os cabelos. Apanhado de surpresa, não atinei de imediato com o motivo do seu
procedimento. Ela mesma me encarregou de mostrar a razão: Seria tão feliz, se possuísse
um navio! - Mas ficaremos pobres, querida! Não teremos com que comprar
alimentos e o garoto morrerá de fome! - Não importa o garoto, teremos um navio,
que é a coisa mais bonita do mundo. Irritado não pude achar graça nas suas
palavras. Como poderia saber da beleza de um barco, se nunca tinha visto um e
se conhecia o mar somente através de uma garrafa?!
2) Contive a raiva e novamente embarquei para o litoral.
Dentre os transatlânticos ancorados no porto, escolhi o maior. Mandei que o
desmontassem e o fiz transportar à nossa cidade.
3) Voltava desolado. No último carro de uma das numerosas
composições que conduziam partes do navio, meu filho olhava-me inquieto,
procurando compreender a razão de tantos e inúteis apitos de trem.
4) Bárbara avisada por telegrama, esperava-nos na gare da
estação. Recebeu-nos alegremente e até dirigiu um gracejo ao pequeno.
6) Montado o barco, ela se transferiu para lá e não mais desceu
à terra. Passava os dias e as noites no convés, inteiramente abstraída de tudo
que não se relacionasse com a nau.
7) O dinheiro escasso, desde a compra do navio, logo se
esgotou. Veio à fome, o guri esperneava, rolava na relva, enchia a boca de
terra. Já não me tocava tanto o choro do meu filho. Trazia os olhos dirigidos
para a minha esposa, esperando que emagrecesse à falta de alimentação. Não
emagreceu. Pelo contrário, adquiriu mais algumas dezenas de quilos.
8) A sua excessiva obesidade não lhe permitia entrar nos
beliches e os seus passeios se limitavam ao tombadilho, onde se locomovia com
dificuldade.
9) Eu ficava junto ao menino e, se conseguia burlar a
vigilância de minha mulher, roubava pedaços de madeira ou ferro do transatlântico
e trocava-os por alimento.
PAUSA: Apito de navio. Imagem da
lua.
Epílogo: O Derradeiro Pedido.
1) Vi Bárbara, uma noite olhando fixamente o céu. Quando
descobri que dirigia os olhos para a lua, larguei o garoto no chão e subi
depressa até o lugar em que ela se encontrava. Procurei, com os melhores
argumentos, desviar-lhe a atenção. Em seguida, percebendo a inutilidade das
minhas palavras, tentei puxá-la pelos braços. Também não adiantou. O seu corpo
era pesado demais para que eu conseguisse arrastá-lo.
2) Desorientado, sem saber como proceder, encostei-me a
amurada. Não lhe vira antes tão grave o rosto, tão fixo o olhar. Aquele seria o
derradeiro pedido. Esperei que o fizesse. Ninguém mais o conteria.
3) Mas, ao cabo de alguns minutos, respirei aliviado. Não pediu
a lua, porém uma minúscula estrela quase invisível ao seu lado. Fui buscá-la.
Apito de Navio. Imagem da estrela.
Lentamente vai apagando o foco de luz sobre o homem. Ficando apenas a imagem da estrela.
Lentamente vai apagando o foco de luz sobre o homem. Ficando apenas a imagem da estrela.
FIM.

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