O PIROTÉCNICO ZACARIAS: Versão para três atores.
O PIROTÉCNICO ZACARIAS: de Murilo Rubião.
Adaptação cênica: Gabriel Arcanjo Rodrigues.
Personas:
N1: Narrador 1.
N2: Narrador 2.
N3: Narrador 3.
CENÁRIO:
Do lado esquerdo uma mesinha e uma cadeira
de madeira, sobre a mesinha uma máquina de escrever, ao lado uma resma alta de
folhas de papel. A frente da mesa uma mala de viagem estilo
antigo, tamanho médio. No lado direito um banco de madeira, sobre o banco
um relógio despertador antigo, em frente ao banco um guarda-chuva tamanho médio
preto. No centro em primeiro plano um pequeno monte de terra, atrás do monte
uma cadeira de madeira. Todo o chão está forrado de bolinhas de folhas de papel
amassadas e um pouco encardidas.
CENAS:
PRÓLOGO:
O público deve ser disposto em
semicírculo, de frente para o espaço cênico. Os atores narradores estão
vestidos com ternos escuros retalhados, esfarrapados, manchados de sangue e
encardidos de terra, no entanto estão naturalmente bem alinhados. Os atores já
devem estar em cena na entrada do público. Uma música suave toca no ato da
entrada das pessoas. N3 está escrevendo na máquina de escrever. N2 está sentado
no banco de madeira com o relógio na mão. N1 está sentado na cadeira central.
N1 e N2 estão totalmente imobilizados, apenas N3 escreve freneticamente na
máquina de escrever. Quando o público estiver totalmente acomodado N2 começa a
dar corda no relógio. A música vai cessando. N2 coloca o relógio sobre o banco.
O som do tique taque do relógio permanece durante todo o espetáculo, cessando
apenas nos momentos em que o relógio desperta, e voltando depois que um dos
narradores dá corda.
CENA 1:
N3: (escrevendo na máquina de
escrever) E se levantará pela tarde sobre ti uma luz, como a do
meio-dia, e quando te julgares consumido, nascerás como a estrela d'alva.
N1:
(Se dirigindo ao primeiro plano) Eis como tudo
aconteceu... A noite estava escura...
Melhor negra!
Os filamentos brancos não tardariam a
ocupar todo o céu... Eu vinha pela estrada... Estrada do acaba
mundo. Algumas curvas... Silêncio... Mais sombras que
silêncio! O automóvel não buzinou de longe... Nem quando já se aproximava
de mim eu enxerguei os seus faróis... Simplesmente porque não era naquela
noite que o branco desceria até a terra! (cai de joelhos e apanha um
punhado de terra) Terra...
N3: (escrevendo) Alexandre
morreu... Alexandre foi sepultado... Alexandre virou pó!
N1: E pó é terra! As moças que
estavam no carro deram gritos histéricos... E não se demoraram a
desmaiar... (levantando-se, cambaleante) Os rapazes falaram
baixo... Curaram-se instantaneamente da bebedeira... E se puseram a discutir:
Qual o melhor destino a ser dado ao cadáver? (para o público) Qual? (para
N3) Qual?
N3: (ríspido) Eu não sei!
Eu não lembro!
Toca o despertador. Fim da cena 1.
CENA 2:
N2 vai para máquina de escrever e começa a
escrever. N3 pega o relógio e dá corda, recoloca no lugar. N1 volta a sentar-se
na cadeira central.
N3: Raras são às vezes na conversa de
amigos meus ou de pessoas das minhas relações que não surja esta pergunta:
Teria morrido o pirotécnico Zacarias? (para alguém da platéia) Ei
você! Morreu ou não morreu Zacarias? (espera resposta, improvisa,
depois para pessoa da platéia) Morreu ou não morreu
Zacarias? (espera resposta, improvisa)
Ora! A este respeito às opiniões são
divergentes...
N2 e N3: (num eco) Divergentes...
Divergentes...
N3: Uns acham que eu estou vivo, o morto
tinha apenas alguma semelhança comigo...
N2 e N3: (num eco) Semelhança
comigo... Semelhança comigo...
N3: Outros mais supersticiosos acreditam
que a minha morte pertença ao rol dos fatos consumados e o indivíduo a que
andam chamando Zacarias, não passa de uma alma penada envolvida por um pobre
invólucro humano!
N2 e N3: (perplexos) Invólucro
humano? Invólucro humano?
N3: Há ainda aqueles que afirmam de
maneira categórica o meu falecimento... E não aceitam o cidadão existente como
sendo Zacarias!(num gesto largo) O Artista Pirotécnico! Mas
alguém muito parecido com o finado, pode?
N2 e N3: (para o público) Pode? (pausa)
N1, N2 e N3: (simultaneamente) Não
Pode!
N1 ajoelha-se diante da cadeira central
como se ela fosse um confessionário. N3 fica a sua frente, faz um gesto
litúrgico como se fosse um padre. N2 continua na máquina de escrever.
N1: (fazendo o nome do padre e rindo
ao mesmo tempo) Uma
coisa ninguém discute, se o Zacarias morreu o seu corpo não foi enterrado... A
única pessoa que poderia dar informações certas a este respeito sou eu...
N2: (escrevendo) É! Eu mesmo!
N1: No entanto estou impedido de fazê-lo, pois
os meus companheiros fogem de mim tão logo me avistam pela frente! Quando
apanhados de surpresa ficam estarrecidos e não conseguem articular uma palavra!
Na verdade eu morri...
N2: (na máquina de escrever) É!
Tô morto!
N1: O que vem de encontro à versão dos que
crêem na minha morte...
N2: (se levantando e se dirigindo
a N1) Por outro lado não estou morto!
N1: (afirmativamente
exagerado) Não!
N2: (para N3) Pois faço
tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado...
N1: (se levantado) Com
muito mais agrado do que anteriormente...
Toca o despertador. Fim da cena 2.
CENA 3:
N2 Dá corda no relógio e o recoloca no lugar. N1 senta-se na cadeira em frente da máquina de escrever, retira a folha de papel amassa e joga no chão, coloca outra folha e recomeça a escrever. N3 se posiciona atrás de N1 e observa.
N2: (começa a sentir forte dor de cabeça, se inclina sobre os joelhos, segura a mão de alguém da platéia) Aí! Minha cabeça! Acho que estou tendo um aneurisma, me ajuda...
N3: (faz um gesto litúrgico) Santa
Cacilda Baker protegei todos os atores
N1 e N2: Amém!
N1: (tentando escrever, lapso de memória. Sussurra) Mas como foi que aconteceu?
N3: (incisivo) É... Como foi?
N2: (se recuperando, para o
público) Como foi
que aconteceu?
N1: (com raiva) Mas eu já disse porra!
N2 e N3: (categóricos) Não disse!
N1: (confuso, se levanta) Disse... (em
dúvida para a platéia) Não disse?
N3: É que eles querem (apontando a
platéia) detalhes.
N1: (indignado) Detalhes?
Ora! Só me faltava essa! (volta a se sentar retira papel amassa joga no
chão, coloca outro papel e recomeça a escrever, (se detêm) Não seria
talvez aquela música do Roberto (canta diante da perplexidade de N2 e
N3) Não adianta nem tentar me esquecer... Durante muito tempo em sua
vida eu vou viver... (se empolga) Detalhes tão pequeno de nós
dois... Minha velha calça desbotada ou coisa assim... (se empolga mais) Imediatamente
você vai lembrar de mim...
N2 e N3: (interrompendo) Não!
N3: Detalhes do atropelamento!
N1: (retornando contrariado a máquina de escrever) Pois bem! Pois bem! (escreve) Momento do
atropelamento.
N2: (anunciando em plenos pulmões) Momento do
Atropelamento!
N3: (anunciando em plenos pulmões de outro ponto) Momento
do atropelamento
N1 sobe sobre a cadeira olha o horizonte
num transe. Começa tocar em volume baixo o Hino Nacional Brasileiro.
N1: (em transe) A princípio foi azul...
N2 e N3: (num eco) Azul... Azul...
N1: Depois verde...
N2 e N3: Verde... Verde...
N1: Amarelo e negro...
N2 e N3: Negro... Negro...
N1: De um negro espesso cheio de lista
vermelhas, de um vermelho, digamos compacto, semelhante a densas fitas de
sangue...
N2 e N3: Sangue... Sangue...
N1: De um sangue pastoso com pigmentos
amarelados... De um amarelo esverdeado... Tênue... Quase sem cor... Quando
tudo ia ficar branco veio um automóvel e...
N1, N2 e N3: (abrem os braços como
crucificados no auge do atropelamento) Me matou! (cessa
bruscamente o hino. pausa)
N1: Senti rodar-me a cabeça... (o
corpo vai amolecendo) O corpo balançar... (vai caindo e é
apoiado por N2 e N3. a partir de agora é manipulado pelos dois como se fosse um
boneco) Como se me faltasse o apoio do solo... Em seguida fui
arrastado por uma força poderosa!
N2, N3: (intensificando a manipulação) Irresistível!
N1: Tentei agarra-me as árvores, cujas
ramagens retorcidas puxadas para cima escapavam aos meus dedos... Alcancei mais
adiante com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar em grande velocidade
por entre elas, sem queimá-las, todavia... Ao meu lado dançavam fogos de
artifício, logo devorados pelo arco íris! (grito prolongado dos
três, volume alto para o baixo. Depois colocam N1 deitado no chão na posição de
crucificado)
N1: (deitado na posição de crucificado) Pai... Perdoai-os... Eles não sabem o que fazem... (desfalece)
N2 e N3 colocam ambos tocas e se transformam em D. Josefina.
N2: (D. Josefina, sotaque mineiro, procurando entre o público) Simplício Santana do Alvarenga?
N3: (D. Josefina, sotaque mineiro, procurando entre o público
em outro ponto) Simplício Santana do Alvarenga? Não está?
N1: (despertando e se erguendo) Presente!
N2: (para N1) Tira a mão da boca Zacarias!
N1: (voz infantilizada) Não tiro!
N2: (ríspida) Quantos são os continentes?
N1: Eu não sei fessora...
N3: (ríspida) E a Oceania?
N1: (exasperado) Eu não sei! Eu não sei!
N2: (solene e irônica) Meus Senhores na luta vence o
mais forte e o momento é de decisões supremas, os que desejarem sobreviver ao
tempo tirem os seus chapéus! (N2 e N3 sobem nas cadeiras)
N1: (se levantando, revoltado) A professora magra,
esquelética, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes... (N2 e N3 sobre as cadeiras começam
a girar lentamente) As
varetas eram tão compridas que obrigavam Dona Josefina a manter os pés
distanciados uns dois metros do assoalho... A cabeça coberta por fios de
barbante quase encostada no teto! (sons de fogos de artifício)
N2 e N3: (ainda girando,
simultaneamente) Simplício
Santana do Alvarenga? Simplício Santana do Alvarenga? Simplício Santana do
Alvarenga?
N1: (ríspido) Não está!
N2 e N3: (ainda girando) Dos mares da China não
mais virão às quinquilharias... Dos mares da China não mais virão às
quinquilharias... Dois mares da China não mais virão às quinquilharias... (vão
repetindo até a exaustão, vozes em off se juntam as dos atores)
N1: (fechando os ouvidos com as mãos,
vai se deitando no mesmo lugar de antes) Meninos... Amai a verdade... Meninos... Amai a verdade... A
verdade... A verdade... (desfalece)
N2 e N3 retiram as tocas, se aproximam de
N1, observam e o cobrem com um tecido manchado de sangue.
N2: (de forma lenta e grave) Viver... Cansar bem os músculos! Andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens...
Toca o despertador. Fim da cena 3.
CENA 4:
N3 vai para a máquina de escrever, retira
a folha papel, amassa e joga no chão, coloca outra folha e recomeça a escrever.
N2 dá corda no relógio e o coloca de volta no lugar.
N3: (escrevendo, num sussurro) Fazia silêncio...
N2: (num tom normal) Silêncio...
N1: (despertando de um pesadelo, grita) Silêncio! (permanece
sentado no chão)
N3: (escrevendo) Mais sombras que silêncio...
N2: Porque os rapazes já não discutiam
baixinho... Falavam com naturalidade... Dosando a gíria... Também o ambiente
repousava na mesma calma. E o cadáver (aponta para N1) O meu
ensangüentado cadáver não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam
dar...
N1: (se levantando) A idéia inicial, logo rejeitada,
consistia em transportar-me para a cidade, onde me deixariam... Bom... No
necrotério.
N3: (escrevendo) Depois de breve discussão, todos os
argumentos analisados com frieza...
N1: (complementando) Prevaleceu a opinião de que o
meu corpo poderia sujar o carro!
N3: (para N1 e N2) Ora! Neste ponto eles estavam
redondamente enganados! (N1 e N2 se voltam para ele curiosos) Como
eu explicarei... (N1 e N2 ansiosos) Mais tarde!
N1: Um dos moços rapazola forte e
imberbe (N2 faz o rapaz) O único que se impressionara com o
acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos propôs...
N3: (escrevendo) Que se deixassem as garotas na
estrada...
N1: (complementando) E me levassem para o cemitério!
N3: (escrevendo) Os rapazes não deram importância a
sua proposta.
N2: (indignado) Filhos das putas!
N1: Limitaram-se a condenar o mal gosto de
Jorginho (N2 faz Jorginho) É... Jorginho! Assim o chamavam...
E a sua insensatez por interessar-se mais pelo destino de um cadáver do que
pelas lindas pequenas que os acompanhavam...
N3: (escrevendo) O rapazola notou a bobagem que
acabara de proferir.
N1: E sem encarar de frente os componentes da
roda se pôs assoviar (N2 assovia) visivelmente encabulado...
Eu não pude deixar de sentir imediata simpatia por ele, em virtude de sua
razoável sugestão, debilmente formulada é claro, aos que decidiam a minha
sorte.
N2: (afeminado) Afinal as longas caminhadas cansam
indistintamente defuntos e vivos!
N1: Não é que este argumento não me ocorreu no
momento...
N2: Não?
N1: Não fiquei ali, sei lá, morto...
N3: (interrompendo, escrevendo) Bom... Discutiram em
seguida outras soluções e, por fim...
N1: Consideraram que jogar-me a um precipício...
N2: A um fundo precipício que margeava a
estrada...
N1: Limpar o chão manchado de sangue...
N2: Lavar cuidadosamente o carro quando
chegassem a casa...
N1: seria o alvitre mais adequado ao caso... E
o que melhor conviria a possíveis complicações com a polícia sempre ávida de
achar mistério onde nada existe de misterioso...
N2: Oras bolas!
N3: (fica de cócoras sobre a cadeira, choraminga olhando para
a máquina de escrever) Mas este seria um dos poucos desfechos que não
me interessavam... Ficar jogado em um buraco em meio de pedras e ervas,
tornava-se para mim uma idéia insuportável!
N1: (subindo na cadeira central) E ainda o meu corpo poderia ao rolar
pelo barranco abaixo ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos...
E se tal acontecesse... Se tal acontecesse... Jamais seria descoberto em seu
improvisado túmulo e o meu nome... O meu nome não ocuparia as manchetes dos
jornais!
N2: (revoltado) Não eles não podiam roubar-me nem
que fosse um pequeno necrológio no principal matutino da cidade... Tinha que
agir rápido e decidido!
N1, N2 e N3: (levantando o
braço) Alto lá!
N3: Também quero ser ouvido!
N1: Jorginho empalideceu... (N2 faz
Jorginho) Soltou um grito surdo... Bum! Caindo desmaiado. Enquanto os
seus amigos algo admirados por verem um defunto falar se dispunham em ouvir-me.
N3: (se levanta na cadeira numa atitude arrogante de
palestrante) Eu tive confiança na minha faculdade de convencer os
adversários em meio às discussões, eu... (começa a rir, N1
acompanha) Não sei se por força da lógica ou... (riem
mais) Se por um dom... É um dom natural. A verdade é que em vida eu
sempre vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e
irretorquível.
N1: A morte não extinguira esta faculdade...
Ah! Não! E a ela os meus matadores fizeram...
N1 e N3: (com vigor) Justiça!
N1: Depois de curto debate onde expus com
clareza os meus argumentos os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma
saída que atendesse a contento as minhas razões e ao programa da noite a exigir
prosseguimento... Para tornar mais difícil a situação sentiam a
impossibilidade... Prestem a atenção... A im-pos-si-bi-li-da-de de dar rumo a
um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos
vivos! Só por Deus! (senta-se na cadeira)
N3: E nossa Senhora da Aparecida! (senta-se
na cadeira, e recomeça a escrever) Se não fosse a um deles surgir uma
idéia imediatamente aprovada teríamos permanecido no impasse, propôs:
N1: Que me incluísse ao grupo e juntos
terminássemos a farra interrompida pelo meu atropelamento! Oba!
N2 que estava deitado como Jorginho se
levanta.
N1, N2 e N3: (numa festa) Terminar a
farra! Terminar a farra! Terminar a farra!
N1: Entretanto outro obstáculo nos conteve. (N2
e N3 param decepcionados)
N2: Aja saco! (batendo os pés volta a
se deitar como Jorginho)
N1: As moças eram apenas três!
N3: Três?
N1: Isto é em número igual ao dos rapazes...
Faltava uma para mim! E eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado!
N3: (fazendo um gesto de banana) Aqui ó
N2: (semi erguendo-se) Vai tomar no...
N1 e N3: (interrompendo) Opa!
N3: Palavrão não. (N2 emburrado volta
a sua posição)
N1: Mas o mesmo rapaz... Aquele rapaz que
aconselhara a minha inclusão no grupo encontrou... Encontrou a fórmula
conciliatória, propôs: Que abandonássemos o companheiro desmaiado na estrada...
(aponta N2 no chão) Para melhorar o meu aspecto, concluiu...
N3: (escrevendo) bastava que eu trocasse as minhas
roupas com as roupas de Jorginho... (N1 tira o paletó de Jorginho,
depois o seu, veste o paletó de Jorginho e joga o seu sobre o rosto dele) E
o que me prontifiquei a fazer imediatamente... Depois de certa
relutância em abandonar o companheiro desmaiado na estrada concordaram todos,
homens e mulheres, estas já restabelecidas do primitivo desmaio...
N1: Que ele fora fraco! E não soubera
enfrentar a situação com dignidade! Portanto era pouco razoável que perdêssemos
tempo com considerações sentimentais em torno da sua pessoa!
Toca o despertador. N2 desperta e se
levanta. Fim da cena 4.
CENA 5:
N2 dá corda no relógio e o recoloca no lugar. N3 retira a folha de papel da máquina, amassa e joga no chão. N1 encara o público no primeiro plano.
N2: Do que aconteceu em seguida eu não guarda recordações muito nítidas...
N3: (se aproximando) A bebida que antes da minha
morte pouco me afetava teve sobre o meu corpo defunto uma ação...
N1, N2 e N3: (fazendo
um brinde com copos invisíveis) surpreendente! (começa a tocar uma música
dançante)
N1, N2 e N3 dançam, bebem, fazem uma farra
até a música se interromper subitamente.
N1: (embriagado) Pelos meus olhos entravam
estrelas...
N2: (embriagado) Luzes cujo as cores ignorava...
N3: (embriagado) Triângulos absurdos, cones e
esferas de marfim...
N1: Rosas negras...
N2: Cravos em forma de lírios...
N3: lírios transformados em mãos...
N1: E a ruiva que me fora destinado,
enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico! (cai
no chão vomitando, os outros acodem e o colocam na cadeira central)
N2 senta-se no chão a frente de N1. N3 se
coloca bem atrás da cadeira onde está N1.
N2: Ao clarear o dia saí da semi letargia em
que me encontrava...
N1: Alguém me perguntava onde eu desejava
ficar...
N3: Recordo-me que insisti em descer no
cemitério.
N2: Ao que me responderam ser impossível.
N1: Pois àquela hora ele estava fechado...
N3: Repeti diversas vezes a palavra
cemitério...
N2: Cemitério...
N3: Cemitério...
N2: Quem sabe eu nem chegasse a repeti-la...
N1: Mas somente movesse os lábios tentando
ligar as palavras às sensações longínquas de meu delírio policrômico!
Toca o despertador. Fim da cena 5.
CENA 6:
N3 pega a mala de viagem no lado esquerdo. N2 pega o guarda-chuva no lado direito. N1 fica em pé na cadeira. Lentamente N2 e N3 devem ir se aproximando um do outro, enquanto N1 faz o seu depoimento.
N2: (para o público) Fim! Isso vai acabar! Talvez isso acabe mesmo! Os grãos juntam-se aos grãos... Um a um... E um dia de repente, um montinho... Um pequeno monte... Um montão impossível! (N2 e N3 se avistam de longe e lentamente irão caminhando um em direção ao outro)
N1: (do alto da cadeira. entra uma música de fundo) Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam com o colorido das paisagens estendidas na minha frente... Ainda havia o medo que eu sentia, desde aquela madrugada quando constatei que a morte penetrara em meu corpo... Não fosse o ceticismo dos homens, recusando-se a aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência... Tinha ainda que lutar contra o desatino que às vezes tornava-se senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar ansioso nos jornais qualquer notícia que elucidasse o mistério do meu falecimento. Fiz várias tentativas para estabelecer contato com os companheiros da noite fatal e o resultado foi desencorajador! E eles eram a esperança que me restava para provar o quão real fora a minha morte!
N2 e N3 ao chegarem um de frente pro outro,
se olham por uns instantes, depois entregam para N1 a mala e o guarda-chuva. N1
desce da cadeira e empunhando a mala e o guarda-chuva vai ao primeiro plano. N3
volta à máquina de escrever, coloca a folha de papel e escreve. N2 senta-se no
banco com o relógio na mão. A música vai cessando.
N3: (escrevendo) No passar dos meses tornou-se menos
intenso o meu sofrimento e, menor...
N2: Menor...
N1: Menor a minha frustração.
N2: Ante a dificuldade de convencer os amigos
que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico...
N1: Com uma diferença aquele (aponta
para N3) era vivo, e este (aponta para si mesmo) um
defunto.
N3: (escrevendo) Só um pensamento me oprime...
N2: Que acontecimentos o destino reservará a
um morto? Se os vivos respiram uma vida agonizante?
N1: E a minha angústia cresce ao sentir na sua
plenitude que a minha capacidade de amar, discernir as coisas é bem superior a
de seres que por mim passam assustados... Amanhã o dia poderá nascer claro... O
sol brilhando como nunca brilhou, nessa hora os homens reconhecerão que mesmo à
margem eu ainda vivo! Porque a minha existência transmudou-se em cores... E o
branco...
N3: (escrevendo) O branco já se aproxima da terra...
N2: Para exclusiva ternura dos meus olhos.
Entra música. N1 vai lentamente se
retirando. N2 começa a dar corda no relógio. N3 retira o papel da máquina de
escrever, amassa, joga no chão, coloca outro papel e recomeça a escrever. A luz
vai lentamente apagando.
FIM.
FIM.

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