O PIROTÉCNICO ZACARIAS:




O PIROTÉCNICO ZACARIAS:
Texto de: Murilo Rubião.
(Divisão para Performance Solo)

Parte um: (Unidade 1) A Estrada do Acaba Mundo:

 ”E se levantará pela tarde sobre ti uma luz, como a do meio dia e quando te julgares consumido nascerás como a estrela d'Alva!"

Eis como tudo aconteceu! A noite estava escura! Melhor, negra.  Os filamentos brancos não tardariam a ocupar todo o céu... Eu vinha pela estrada, estrada do acaba mundo, algumas curvas, silêncio, mais sombras que silêncio. O automóvel não buzinou de longe, nem quando já se encontrava perto de mim eu enxerguei os seus faróis, simplesmente porque não era naquela noite que o branco desceria até a Terra. (Alexandre morreu... Alexandre foi enterrado... Alexandre virou pó... E pó é terra!) As moças que estavam no carro deram gritos histéricos e, não se demoraram a desmaiar! Os rapazes falaram baixo, curaram-se instantaneamente da bebedeira e, se puseram a discutir; qual o melhor destino a ser dado ao cadáver? Qual? Eu não sei! Eu não lembro!

Unidade 2: As Opiniões Divergentes:

Sem cor jamais quis viver... Viver! Cansar bem os músculos! Andando pelas ruas cheias de gente, ausentes de homens... (pausa) Raras são às vezes nas conversas de amigos meus ou de pessoas de minhas relações que não surja esta pergunta; teria morrido o Pirotécnico Zacarias? (para alguém do público) Ei você, morreu ou não morreu Zacarias? (improvisa conforme a resposta) Ora! A este respeito às opiniões são divergentes, uns acham que estou vivo, - o morto tinha apenas alguma semelhança comigo, - outros mais supersticiosos acreditam que a minha morte pertence ao rol dos fatos consumados e, o indivíduo a que andam chamando Zacarias não passa de uma alma penada envolvida por um pobre invólucro humano. Há ainda aqueles que afirmam de uma maneira categórica o meu falecimento e, não aceitam o cidadão existente como sendo: Zacarias! O Artista Pirotécnico! - mas alguém muito parecido com o finado! (para alguém do público) Pode?  (conforme resposta) Não pode!

Unidade 3: Com mais Agrado do que Anteriormente:

Uma coisa ninguém discute: Se o Zacarias morreu o seu corpo não foi enterrado... Única pessoa que poderia dar informações certas sobre o assunto sou eu... É! Eu mesmo! No entanto estou impedido de fazê-lo... (olha para trás e em volta) Pois os meus companheiros fogem de mim tão logo me avistam pela frente... Quando apanhados de surpresa ficam estarrecidos e, não conseguem articular uma palavra! (levanta-se, olha em volta e se aproxima do público, como se segredasse) Em verdade eu morri... É! Tô morto! O que vem de encontro à versão dos que crêem na minha morte... Por outro lado, não estou morto, não... Pois faço tudo o que antes fazia e, devo dizer, com mais agrado, com muito mais agrado do que anteriormente.

unidade 4: O Atropelamento.

 Começa a sentir uma forte dor na cabeça que o faz curvar o corpo, se aproxima de alguém do público e segura a sua mão enquanto desce curvado até o chão.

Zacarias: Ai minha cabeça! (aperta a mão da pessoa) Acho que eu estou tendo um aneurisma... Ajuda-me, por favor... (aperta mais a mão) Santa Cacilda Baker protegei todos os atores! (solta à mão da pessoa, sussurrando) Mas como foi que aconteceu? (continua indagando para a platéia) Como foi que aconteceu? (com ira) Mas eu já disse porra! Não disse? Disse!(olha o público desconfiado) mas talvez os senhores queiram saber de detalhes? (indignado) detalhes... Hum... Só me faltava essa... (um pouco confuso) Mas como foi que aconteceu? (fica pensativo olhando para um ponto fixo) Momento do atropelamento... (busca na memória e começa a reviver o momento) A princípio foi azul... Azul... Azul... Depois verde, amarelo e negro! De um negro espesso cheio de listras vermelhas... De um vermelho, digamos, compacto, semelhante a densas fitas de sangue... De um sangue pastoso com pigmentos amarelados... De um amarelo esverdeado... Tênue... Quase sem cor... Quando tudo ia ficar branco veio um automóvel e... Me matou! Senti rodar-me a cabeça... O corpo balançar, como se me faltasse o apoio do solo... Em seguida fui arrastado por uma força poderosa... Irresistível! Tentei agarrar-me às árvores, cujo as ramagens retorcidas puxadas para cima, escapavam aos meus dedos... Alcancei mais adiante com as mãos, uma roda de fogo, que se pôs a girar em grande velocidade, sem queimá-las, todavia... Ao meu lado dançavam fogos de artifícios, logo devorados pelo arco-íris! (grito lancinante e prolongado, vai descendo até o chão) Pai... Perdoai-os, eles não sabem o que fazem! (desfalece por alguns segundos).

Fim da Primeira parte.

Cena de transição: 

(Voz de D. Josefina) Simplício Santana do Alvarenga! Simplício Santana do Alvarenga! Não está? (pausa) Tira a mão da boca Zacarias! (mudança de voz, infantil) Não tiro! (nova mudança) Quantos são os continentes (infantil) Eu não sei fessora... (idem) E  a Oceania? (infantil, exasperado) Eu não sei! Eu não sei! (nova mudança de voz) Meus senhores, na luta vence o mais forte e o momento é de decisões supremas! Os que desejarem sobreviver ao tempo tirem os seus chapéus! (nova mudança de voz) A professora magra, esquelética, empunhava na mão direita uma dúzia de foguetes, as varetas eram tão compridas que obrigavam Dona Josefina a manter os pés distanciados uns dois metros do assoalho, a cabeça coberta por fios de barbante, quase encostada no teto! (procura novamente entre o público) Simplício Santana do Alvarenga! Simplício Santana do Alvarenga! Não está? (nova mudança de voz, num delírio vai repetindo a frase) Dos mares da China não mais virão às quinquilharias... Dos mares da china não mais virão às quinquilharias... Meninos amai a verdade... Meninos amai a verdade... A verdade... A verdade... (fecha os olhos e permanece na posição)

Fim da cena de transição.

Segundo parte: (unidade 1) O Destino a Ser Dado ao Cadáver:

Fazia silêncio... Silêncio... Silêncio! (levantando-se) Mais sombra que silêncio... Porque os rapazes já não mais discutiam baixinho... Falavam com naturalidade, dosando a gíria, também o ambiente repousava na mesma calma... E, o cadáver... O meu ensangüentado cadáver, não protestava contra o fim que os moços lhe desejavam dar... A idéia inicial, logo rejeitada, consistia em transportar-me para cidade, onde me deixariam... Bom... No necrotério... Depois de breve discussão, todos os argumentos analisados com frieza, prevaleceu à opinião de que o meu corpo poderia sujar o carro... Ainda havia o inconveniente das moças se rejeitarem a viajar ao lado de um defunto! Ora! Neste ponto eles estavam redondamente enganados... Como eu explicarei... Mais tarde.
Um dos moços, rapazola forte e imberbe, o único que se impressionara pelo acidente e permanecera calado e aflito no decorrer dos acontecimentos propôs: que se deixassem as garotas na estrada e me levassem para o cemitério! Os rapazes não deram importância a sua proposta, (filhos da puta!) limitaram-se a condenar o mau gosto de Jorginho... É "Jorginho" assim o chamavam... E a sua insensatez por interessar-se mais pelo destino de um defunto, do que pelas lindas pequenas que os acompanhavam... O rapazola notou a bobagem que acabava de proferir e sem encarar de frente os componentes da roda se pôs a assoviar visivelmente encabulado... Eu não pude deixar de sentir imediata simpatia por ele, em virtude de sua razoável sugestão, debilmente formulada (é claro) aos que decidiam a minha sorte... Afinal as longas caminhadas cansam indistintamente mortos e vivos! (não é que este argumento não me ocorreu no momento.) Bom... Discutiram em seguida outras soluções e, por fim consideraram que jogar-me a um precipício... A um fundo precipício que margeava a estrada, limpar o chão manchado de sangue, lavar cuidadosamente o carro quando chegassem a casa, seria o alvitre mais adequado ao caso e, o melhor conviria a possíveis complicações com a polícia sempre ávida de achar mistério onde nada existe de misterioso (oras bolas!).
(fica de cócoras na cadeira, entra num estado de quase planto, um tanto patético) Mas este seria um dos poucos desfechos que não me interessavam... Ficar jogado em um buraco! Em meio de pedras e ervas! Tornava-se para mim uma idéia insuportável! E ainda, o meu corpo poderia ao rolar barranco abaixo, ficar escondido entre a vegetação, terra e pedregulhos... E se tal acontecesse... Se tal acontecesse... Jamais seria descoberto em seu improvisado túmulo e, o meu nome... O meu nome... Não ocuparia as manchetes dos jornais! Não! Não! Eles não podiam roubar-me nem que fosse um pequeno necrológico no principal matutino da cidade! Tinha que agir rápido e decidido! Alto lá! Também quero ser ouvido! Jorginho empalideceu... Soltou um grito surdo... Bum! Caindo desmaiado! Enquanto os seus amigos admirados por verem um defunto falar, se dispunham a ouvir-me. (pausa)
(numa atitude arrogante de palestrante) Eu sempre tive confiança na minha faculdade de convencer os adversários em meio às discussões, eu... (começa a rir descontrolado, enquanto tenta falar) não sei se por força da lógica ou se por um dom... É "um dom natural!"... A verdade é que em vida eu vencia qualquer disputa dependente de argumentação segura e irretorquível! A morte não extinguira esta faculdade... Ah! Não... E a ela os meus matadores fizeram justiça! (postura de palestrante, afetado) Depois de curto debate onde expus com clareza os meus argumentos os rapazes ficaram indecisos, sem encontrar uma saída que atendesse a contento as minhas razões e ao programa da noite a exigir prosseguimento... Para tornar mais difícil a situação sentiam a impossibilidade... Prestem a atenção: a im-pos-si-bi-li-da-de de dar rumo a um defunto que não perdera nenhum dos predicados geralmente atribuídos aos vivos... (só por Deus e Nossa Senhora da Aparecida!). Se não fosse a um deles surgir uma idéia imediatamente aprovada teríamos permanecido no impasse, propôs: Que me incluísse ao grupo e juntos terminássemos a farra interrompida pelo meu atropelamento! (num salto) Oba!(salto de alegria, seguido de desânimo) Entretanto, outro obstáculo nos conteve (haja saco!) as moças eram apenas três... Três! Isto é, em número igual aos dos rapazes, faltava uma para mim! E eu não aceitava fazer parte da turma desacompanhado! (aqui ó! Tá pensando o quê?) vai tomar no... (se contem, pausa) Perdão... (pausa, dirige-se a alguém do público) Eu disse perdão. (anima-se novamente) Mas o mesmo rapaz... Aquele rapaz que aconselhara minha inclusão no grupo encontrou... Encontrou a fórmula conciliatória! Propôs: que abandonássemos o companheiro desmaiado na estrada, para melhorar o meu aspecto, concluiu: bastava que eu trocasse as minhas roupas com as roupas de "Jorginho”, o que me prontifiquei a fazer rapidamente! Depois de certa relutância em abandonar o companheiro desmaiado na estrada, concordaram todos, homens e mulheres (estas restabelecidas do primitivo desmaio), que ele fora fraco! E não soubera enfrentar a situação com dignidade! Portanto, era pouco razoável que perdêssemos tempo com considerações sentimentais em torna da sua pessoa!



Unidade 2: Delírios Policrômicos:

Zacarias: (cambaleante) Do que aconteceu em seguida eu não guardo recordações muito nítidas, a bebida que antes da minha morte pouco me afetava, teve sobre o meu corpo defunto uma ação surpreendente! (volta música, bebe mais, Zacarias dança, se diverte, música para repentinamente) Pelo os meus olhos entravam estrelas, luzes cujo as cores ignorava, triângulos absurdos, cones e esfera de marfim... Rosas negras... Cravos em forma de lírios... Lírios transformados em mão... E a ruiva que me fora destinada, enlaçando-me o pescoço com o corpo transmudado em longo braço metálico! (coloca a mão na boca com ânsia de vômito, arrasta-se até a cadeira e senta) Ai minha cabeça... (rememora) Ao despertar o dia saí da semi letargia em que me encontrava, alguém me perguntava a onde eu desejava ficar... Recordo-me que insisti em descer no cemitério... Ao que me responderam ser impossível... Pois àquela hora ele estava fechado... Repeti diversas vezes a palavra cemitério... (delirando, gesticula os lábios sem som) cemitério... Cemitério... Cemitério... Quem sabe eu nem chegasse a repeti-la, mas somente movesse os lábios tentando ligar as palavras às sensações longínquas de meu delírio policrômico! (pausa)

Terceira parte: (Unidade 1) O Ceticismo dos Homens:

(Fim! É o fim! Isso vai acabar... talvez, isso acabe mesmo! Os grãos juntam-se aos grãos... um a um... e um dia, um montinho... um pequeno monte... um montão impossível!) Por muito tempo se prolongou em mim o desequilíbrio entre o mundo exterior e os meus olhos, que não se acomodavam com o colorido das paisagens estendidas na minha frente... Ainda havia o medo que eu sentia, desde aquela madrugada quando constatei que a morte penetrara em meu corpo... Não fosse o ceticismo dos homens recusando-se a aceitar-me vivo ou morto, eu poderia abrigar a ambição de construir uma nova existência... Tinha ainda, que lutar contra o desatino que às vezes tornava-se senhor dos meus atos e obrigava-me a buscar ansioso nos jornais qualquer notícia que elucidasse o mistério do meu falecimento... Fiz várias tentativas para estabelecer contato com os companheiros da noite fatal... Mas o resultado foi desencorajador... E, eles eram a esperança que me restava para provar o quão real fora a minha morte. 

(Unidade 2 e Epílogo) A Capacidade de Amar e de Discernir as Coisas. 

No passar dos meses tornou-se menos intenso o meu sofrimento e, menor a minha frustração ante a dificuldade de convencer os amigos que o Zacarias que anda pelas ruas da cidade é o mesmo artista pirotécnico, com uma diferença, aquele era vivo e este um defunto... (pausa) Só um pensamento me oprime, que acontecimentos o destino reservará a um morto se os vivos respiram uma vida agonizante? E a minha angústia cresce ao sentir na sua plenitude, que a minha capacidade de amar, discernir as coisas é bem superior a de seres que por mim passam assustados... Amanhã o dia poderá nascer claro, o sol brilhando como nunca brilhou, nessa hora os homens reconhecerão que mesmo à margem eu ainda vivo! Porque a minha existência transmudou-se em cores... E o branco... O branco já se aproxima da Terra, para exclusiva ternura dos meus olhos... (permanece alguns instantes vislumbrando o branco, enxuga-se com um lenço manchado de sangue, empunha o guarda-chuva e a mala, entra música de fundo, começa a se retirar, a música vai aos poucos se intensificando, detém se antes de sair, olha a todos profundamentemúsica intensifica-se). 

FIM.

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